sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A santidade do sacerdote, à luz de São Tomás de Aquino


Quanto mais semelhança com Cristo os fiéis encontrarem nos sacerdotes,
tanto mais facilmente se deixarão guiar por eles. 
E portanto, mais eficaz será o seu ministério.

Considerando com profundidade a essência da ordenação sacerdotal e do próprio ministério sagrado, São Tomás nos ensina que o presbítero deve tender à perfeição mais ainda que um religioso ou uma freira. E de fato, para se entender tal ensinamento, basta ter bem presente o alto grau de santidade que a Celebração Eucarística e a santificação das almas exigem de um ministro,1 como nos adverte o Divino Mestre: “Vós sois o sal da terra; mas, se o sal se torna insosso, com que se salgará? Não servirá para nada senão para jogá-lo fora a fim de que os homens o pisem. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-14a). Diante dessa enorme responsabilidade, compreende-se o motivo pelo qual não poucos santos tiveram receio da ordenação sacerdotal.
Esta questão é de candente atualidade, pois o sucesso maior ou menor de seu ministério em favor dos fiéis pode depender, de modo particular, do próprio sacerdote. Sabemos que os Sacramentos operam com eficácia pelo poder de Cristo, produzindo a graça por si mesmos. No entanto, sua penetração será maior ou menor conforme as disposições interiores de quem os recebe. E aqui entra um elemento subjetivo no qual tem importante papel a ação pastoral do ministro ordenado, pois sua virtude, seu fervor, seu empenho em pregar o Evangelho, em última análise, a santidade de sua vida — a qual é, por sua vez, uma forma excelente e insubstituível de pregação —, podem influenciar os fiéis a receberem os Sacramentos com melhores disposições, beneficiando-se, assim, mais de seus frutos.
Será este o fator de maior relevância no bom desempenho do ministério sacerdotal?
A propósito, na Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, de 16 de junho p.p., o Santo Padre Bento XVI ressalta que o sacerdote deve aprender de São João Maria Vianney “a sua total identificação com o próprio ministério”.
Por essa razão, deseja o Papa, neste Ano Sacerdotal, “favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia de seu ministério”.2
É este ponto — de máxima importância para a vida da Igreja, mormente para a missão de anunciar o Evangelho e de santificar os fiéis — que pretendemos abordar nestas páginas: a relação entre eficácia do ministério sacerdotal e santidade pessoal de quem o exerce.
Recorreremos primordialmente ao ensinamento perene de São Tomás de Aquino.

A santidade do sacerdote, uma exigência

Desde a Antiga Lei, a pessoa do sacerdote é cercada de uma dignidade que requer vida exemplar. Assim, no Livro do Levítico, encontramos duplo apelo à santidade. De um lado, a mando de Deus, Moisés exorta o povo de Israel a buscar a perfeição: “Fala a toda a comunidade dos israelitas e dize-lhes: Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 1). Mas aos sacerdotes a santidade é exigida com mais razão, porque são eles a oferecer os sacrifícios, fazendo o papel de intermediários entre Deus e o povo. Apresentar-se manchado pelo pecado diante do Altíssimo, para exercer o múnus sacerdotal, seria uma afronta ao Criador. “Os sacerdotes [...] serão santos para o seu Deus e não profanarão o seu nome, porque oferecem ao Senhor os sacrifícios consumidos pelo fogo, o pão de seu Deus. Serão santos” (Lv 21, 5-6).
E dado que o Antigo Testamento é figura do Novo, compreende-se a necessidade de, na Nova Aliança, a santidade atingir um grau muito maior. Isto transparece na teologia tomista, a qual nos apresenta o ministro ordenado como tendo sido elevado a uma dignidade régia, no meio dos outros fiéis de Cristo, pois O representa e, em diversas ­ocasiões, age in persona Christi. Impossível, portanto, imaginar-se título superior. E como ele é chamado a ser mediador entre Deus e os homens, além de guia destes para as coisas divinas, deve necessariamente ser-lhes superior em santidade, embora todos os batizados sejam também chamados à perfeição.
Santo Afonso de Ligório, em sua obra A Selva, fundamentando-se na autoridade de São Tomás, esboça a figura do sacerdote como aquele que, por seu ministério, supera em dignidade os próprios Anjos, e por isso está obrigado a uma maior santidade, dado o seu poder sobre o Corpo de Cristo. De onde, conclui o fundador dos Redentoristas, a necessidade de uma dedicação integral do sacerdote à glória de Deus, de tal sorte que brilhe aos olhos do Senhor em razão da sua boa consciência e aos olhos do povo por sua boa reputação.3
Sobre isso ainda, recorda a doutrina tomista a necessidade de os ministros do Senhor terem uma vida santa: “In omnibus ordinibus requiritur sanctitas vitæ”.4 Devem, portanto, sobretudo eles, serem o mais possível semelhantes ao próprio Deus: “Sede perfeitos assim como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5, 48).
São conhecidas as invectivas de Nosso Senhor contra os escribas e fariseus. O que Jesus recriminava a estes homens, tão conhecedores da Lei, era justamente o fato de não viverem aquilo que ensinavam. Pretendendo aparecer aos olhos dos outros como exímios cumpridores dos preceitos mosaicos, não tinham reta intenção, nem verdadeiro amor a Deus. Seus ritos externos não eram acompanhados pela compunção de coração. Para que os sacerdotes da Nova Aliança não caiam no mesmo desvio, convém lembrar o comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, onde São Tomás afirma: “Aqueles que se entregam aos ministérios divinos obtêm uma dignidade régia e devem ser perfeitos na virtude, conforme se lê no Pontifical”.5
Daí que na homilia sugerida no rito de ordenação presbiteral esteja incluída esta tocante exortação: “Tomai consciência do que fazeis, e ponde em prática o que celebrais, de modo que, ao celebrar o mistério da Morte e Ressurreição do Senhor, vos esforceis por mortificar o vosso corpo, fugindo aos vícios, para viver uma vida nova”.6
A caridade de Cristo O levou a oferecer a vida em holocausto no patíbulo da Cruz, pela redenção da humanidade. Também aqueles que são chamados a ser mediadores entre Deus e os homens, devem exercer o seu ministério por amor, como ensina o Aquinate.
O sacerdote, portanto, é chamado a um grau de santidade especial: “Pela Ordem sacra, o clérigo é consagrado aos ministérios mais dignos que existem, nos quais ele serve o Cristo no Sacramento do altar, o que exige uma santidade interior muito maior do que a exigida no estado religioso”.7

O sacerdote é modelo para os fiéis

Sendo visto pelos fiéis como alguém escolhido por Deus para guiá-los, o ministro ordenado deve ser sempre exemplo preclaro de virtude, como recomenda o Apóstolo a seu discípulo Tito: “Mostra-te em tudo modelo de bom comportamento: pela integridade na doutrina, gravidade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário seja confundido, não tendo a dizer de nós mal algum” (Tt 2, 7-8).
Com efeito, uma conduta irrepreensível, inflamada de caridade, dando testemunho da beleza da Igreja e da veracidade da mensagem evangélica, falará muito mais profunda e eficazmente às almas do que o mais lógico e eloquente dos discursos: “O ornato do mestre é a vida virtuosa do discípulo, como a saúde do enfermo redunda em louvor do médico. [...] Se apresentarmos nossas boas obras, será louvada a doutrina de Cristo”.8
Cristo é o verdadeiro modelo do ministro consagrado. É com Ele que o sacerdote deve configurar-se, não só pelo caráter sacramental, mas também pela imitação de suas perfeições, de forma que nele os fiéis possam ver outro Cristo. Só assim estes se sentirão atraídos pelo bom exemplo de seu pastor e guia.
Dada a natureza social do homem, a boa reputação decorrente da prática da virtude leva os outros à imitação. Assim, quanto mais semelhança com Cristo encontrarem os fiéis nos ministros de Deus, tanto mais facilmente se deixarão guiar por eles. E, portanto, mais eficaz será o seu ministério.

A sacralidade do sacerdote

Um elemento conexo ao bom exemplo é a proporcionada respeitabilidade da qual deve cercar-se o ministro de Deus — não só pelo comportamento inatacável, mas também pela postura, pelo modo de ser e pelo traje — para que sua atuação exerça mais influência na alma dos fiéis.
Com efeito, mesmo em nossos dias, a experiência cotidiana nos revela como é impressionante a admiração devotada ao religioso ou sacerdote que se apresenta como tal. Essa respeitabilidade, que a uns pode parecer artificialidade, acaba sendo um valioso auxílio para o próprio ministro, pois contribui para ele ter sempre presente em seu espírito a alta dignidade de que foi investido, a qual imprimiu caráter em sua alma, por toda a eternidade. Além de ser, ao mesmo tempo, uma salutar proteção contra incontáveis seduções do mundo.

A Santa Missa, fonte da santidade sacerdotal

Neste Ano Sacerdotal, iniciado por ocasião dos 150 anos da morte do Santo Cura d’Ars, modelo de sacerdote, vem a propósito lembrar sua entranhada e ardorosa devoção pela Santa Missa:
“Se conhecêssemos o valor da Missa, morreríamos. Para celebrá-la dignamente, o sacerdote deveria ser santo. Quando estivermos no Céu, então veremos o que é a Missa, e como tantas vezes a celebramos sem a devida reverência, adoração, recolhimento”.9
No Decreto Presbyterorum ordinis, o Concílio Vaticano II, em perfeita harmonia com a doutrina tomista, resume de forma admirável a centralidade da Eucaristia na vida espiritual do sacerdote, como seu principal meio de santificação.
Recorda, em seguida, que é através do ministério ordenado que o sacrifício espiritual dos fiéis se consuma em união com o sacrifício de Cristo, oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental.
E afirma que “para isto tende e nisto se consuma o ministério dos presbíteros. Com efeito, o seu ministério, que começa pela pregação evangélica, tira do sacrifício de Cristo a sua força e a sua virtude”.10 O que equivale a dizer que o sacerdote vive para a Celebração Eucarística e é dela que deve haurir a força para progredir na prática da virtude.
Garrigou-Lagrange sintetiza com precisão esta doutrina: “O sacerdote deve considerar-se ordenado principalmente para oferecer o Sacrifício da Missa. Em sua vida, este Sacrifício é mais importante que o estudo e as obras exteriores de apostolado. Com efeito, o seu estudo deve ordenar-se ao conhecimento cada vez mais profundo do mistério de Cristo, supremo Sacerdote, e o seu apostolado deve derivar da união com Cristo, Sacerdote principal”.11
Royo Marín, ao comentar a exortação do Pontifical Romano, feita pelo Bispo aos ordenandos, afirma com ênfase que a Santa Missa é “a função mais alta e augusta do sacerdote de Cristo”.12 E, conhecedor das múltiplas ocupações pastorais de um sacerdote, que podem facilmente desviá-lo do cerne da sua vocação de mediador entre Deus e os homens, reforça a mesma ideia, logo em seguida, com inflamadas palavras de zelo sacerdotal: “É-se sacerdote, antes de tudo e sobretudo, para glorificar a Deus mediante o oferecimento do Santo Sacrifício da Missa”.13
Bento XVI, ao tratar da vocação e espiritualidade sacerdotais, sob uma perspectiva pastoral, afirma: “A Celebração Eucarística é o maior e mais nobre ato de oração, e constitui o centro e a fonte da qual também as outras formas recebem a ‘linfa’: a Liturgia das Horas, a adoração eucarística, a lectio divina, o santo Rosário, a meditação”.14

A eficácia do ministério sacerdotal

Como vimos anteriormente, a santidade de vida do sacerdote, enquanto exemplo para os fiéis de Cristo, é possante elemento para conduzi-los à perfeição. Bem ressalta Dom Chautard que a um sacerdote santo corresponde um povo fervoroso; a um sacerdote fervoroso, um povo piedoso; a um sacerdote piedoso, um povo honesto; a um sacerdote honesto, um povo ímpio.15 Grande é, pois, o papel da virtude do ministro, para o êxito de seu ministério.
No que respeita à aplicação do valor da Santa Missa, com finalidade propiciatória, é que se pode falar de sua eficácia subjetiva, dependente das disposições de quem a celebra e daqueles aos quais ela é aplicada, como explica São Tomás: “Ainda que a oferenda da Eucaristia, quanto à sua quantidade, seja suficiente para satisfazer por toda a pena, contudo ela tem valor de satisfação para quem ela é oferecida ou para quem a oferece, conforme a medida de sua devoção, e não pela pena inteira”.16
A respeito deste trecho do Doutor Angélico, Albert Raulin faz o seguinte comentário: “Seria perniciosa ilusão acreditar que o ofertante está dispensado do fervor, sob pretexto de que Cristo, oferecendo-Se na Missa, satisfez plenamente por todos os pecados do mundo”.17
Ante esta realidade, o sacerdote tem dois grandes deveres. Um para consigo mesmo e outro para com o povo, pois ambos se beneficiam dos frutos da Santa Missa, especialmente o celebrante, conforme o grau de fervor ou devoção.18
Dessa maneira, corresponderá ele à altíssima dignidade de seu ministério, segundo dizia o Santo Cura d’Ars:
“Sem o Sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no Sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu”.19

A voz da Cátedra de Pedro

Chegados ao termo deste trabalho, em vez de recapitular a matéria tratada, como seria de praxe no melhor estilo acadêmico, parece-nos mais filial para com a Cátedra de Pedro recordar aqui, a título de conclusão, alguns pontos importantes de documentos recentes do Magistério Pontifício sobre o sacerdócio.
Não deixa de ser comovedor que em sua última Carta aos Sacerdotes, no ano 2005, o Papa João Paulo II tenha desejado centrar esse documento sobre as palavras da Consagração, como querendo ressaltar que o ápice de sua vida sacerdotal se aproximava, com o oferecimento de seu próprio sacrifício, pela doação total da vida unida ao sacrifício de Cristo. Oferecimento recomendado pelo atual Pontífice na Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, citando estas palavras do Santo Cura d’Ars: “Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus, todas as manhãs!”.
Com efeito, iniciava João Paulo II essa sua última Carta lembrando que “se toda a Igreja vive da Eucaristia, a existência sacerdotal deve a título especial tomar ‘forma eucarística’”.20
É indispensável que o sacerdote, para salvar aqueles que lhe estão confiados, ofereça o seu próprio sacrifício, unido ao de Cristo, a exemplo de São Paulo: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24). É dessa maneira que as palavras da Consagração se transformam em “fórmula de vida”, como deu exemplo o Servo de Deus João Paulo II. Ensinamento este lembrado também por seu sucessor, Bento XVI: “As almas custam o Sangue de Cristo, e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o ‘alto preço’ da Redenção”.21
Não podemos deixar, finalmente, de evocar o papel insubstituível da Mãe de Deus na vida sacerdotal. “Quem pode, melhor do que Maria, fazer-nos saborear a grandeza do mistério eucarístico? Ninguém pode, como Ela, ensinar-nos com quanto fervor devemos celebrar os santos Mistérios e determo-nos em companhia do seu Filho escondido sob as espécies eucarísticas”.22
Ensina-nos ainda este Papa tão mariano, que foi João Paulo II, na sua Encíclica Ecclesia de Eucaristia:
“No ‘memorial’ do Calvário, está presente tudo o que Cristo realizou na sua Paixão e Morte. Por isso, não pode faltar o que Cristo fez para com sua Mãe em nosso favor. De fato, entrega-Lhe o discípulo predileto e, nele, cada um de nós: ‘Eis aí o Teu filho’. E de igual modo diz a cada um de nós também: ‘Eis aí a tua mãe’” (cf. Jo 19, 26-27).
Neste Ano Sacerdotal, procuremos especialmente estar unidos ao sacrifício de Cristo com o espírito de Maria, Ele que fez de toda a sua existência uma Eucaristia antecipada, preparando-Se dia a dia para a entrega suprema no Calvário.²

(Excertos do estudo preparado para a Pontifícia Congregação para o Clero, por ocasião do Ano Sacerdotal – Texto integral em , seção “Estudos” Rev. Arautos do Evangelho) 
1 Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. De Sanctificatione sacerdotum, secundum nostri temporis exigentias. Roma: Marietti, 1946, p.66-67.
2 BENTO XVI. Discurso à Congregação para o Clero, 16/03/2009.
3 Cf. SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. A Selva. Porto: Fonseca, 1928, p.6. O Autor remete aos seguintes pontos das obras de São Tomás: Summa Theologiae, III, q.22, a.1, ad.1; Super Heb. c.5, lec. 1; Summa Theologiae, II-II, q.184, a.8; Summa Theologiae, Supl. q.36, a.1.
4 SANCTUS THOMAS AQUINAS, Summa Theologiae, Supl. q.36, a.1.
5 SANCTUS THOMAS AQUINAS. IV Sent. d.24, q.2.
6 PONTIFICAL ROMANO. Rito de Ordenação de Diáconos, Presbíteros e Bispos, n.123. São Paulo: Paulus, 2004.
7 SANCTUS THOMAS AQUINAS, Summa Theologiae, II-II, q.184, a.8., Resp.
8 Super Tit. c.2, lec.2.
9SÃO JOÃO BATISTA VIANNEY, apud GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. De unione sacerdotis cum Christo sacerdote et victima. Roma: Marietti, 1948, p.42.
10 Idem.
11GARRIGOU-LAGRANGE, OP, op. cit., p.38.
12 ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. Madrid: BAC, 2001, p.848.
13 Idem, ibidem.
14 BENTO XVI. Homilia no Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 3/5/2009.
15 Cf. CHAUTARD, OCSO, Jean-Baptiste. A Alma de todo o apostolado. Porto: Civilização, 2001, p.34-35.
16 SANCTUS THOMAS AQUINAS, Summa Theologiae,III, q.79, a.5, Resp.
17 In: SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2006, v.IX, p.358.
18 Cf. ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología Moral para Seglares. Madrid: BAC, 1994, v.II, p.158.
19 Palavras de São João Maria Vianney, citadas pelo Papa Bento XVI na Carta para Proclamação do Ano Sacerdotal, de 16/6/2009.
20 JOÃO PAULO II. Carta aos Sacerdotes, n.1, 13/05/2005.
21 BENTO XVI. Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, 16/6/2009.
22 JOÃO PAULO II. Op. cit., n.8, 13/3/2005.

domingo, 7 de novembro de 2010

Conhecendo nosso catequizando

Sendo o catequista um ”jardineiro de gente” (Madre Ma. Helena Cavalcanti), é fundamental que conheça bem seus catequizandos, a fim de melhor atingir cada um deles de forma profunda e integral. O Diretório Geral para a Catequese, em seu número 171, afirma: “A Catequese, segundo as diferentes idades, é uma exigência essencial para a comunidade cristã“. É também um dos processos da pedagogia da fé. 

Numa Catequese eficaz, se faz necessário o catequista conhecer bem os catequizandos, o conteúdo a ser transmitido e as estratégias mais apropriadas para as diferentes idades e realidades. “A catequese é um processo dinâmico e abrangente de educação da fé, um itinerário, e não apenas uma instrução. Não há tempo e hora para acabar. É vida vivida na fé. Uma caminhada para a vida toda, que não pode limitar-se a ocasiões e lugares.”(CR 281. 284). 

Quando a catequese se torna um processo de educação permanente da fé, observamos algumas características, onde: 
1- Crescem juntos o homem e o cristão; 
2- A Boa Nova é proclamada para transformar;
3- Os catequistas são testemunhas e educadores da fé, além de apresentar uma metodologia dinâmica e adequada;
4- Há estímulo para a construção do Reino de Deus. 

Afirma o Diretório Geral para a Catequese em seu número 167, que “todo batizado, porque chamado por Deus à maturidade da fé, necessita e, portanto, tem o direito a uma catequese adequada. É, por isso, tarefa primária da Igreja responder a este direito, de maneira totalmente congruente e satisfatória. Neste sentido, recorda-se, antes de qualquer outra coisa, que o destinatário do Evangelho é “um homem concreto e histórico” sempre radicado em determinada situação, sempre influenciado, conscientemente ou não, por condicionamentos psicológicos, sociais, culturais e religiosos. No processo de catequese, o destinatário deve poder manifestar-se sujeito ativo, consciente e co-responsável, e não puro receptor silencioso e passivo.” 

Diante desta realidade, um catequista consciente de sua missão, deve sempre saber: 
1- Com quem fala. 2- O que fala. 3- Como fala .
Cada pessoa humana deve ser conhecida e respeitada por si mesma, já que é imagem e semelhança de Deus (cfr. Gn 1,26). Portanto, o acolhimento da Mensagem da Catequese será de acordo com a realidade de cada catequizando. 

Sabemos que todo o ser humano tem em si: 
- corpo – dimensão física (estrutura física, habilidades e capacidades próprias); 
- inteligência – dimensão cognitiva (capacidade de apreender e produzir conhecimento);
- emoção – dimensão afetiva (sente e manifesta emoção em suas palavras e atitudes);
- vontade – dimensão volitiva (tem vontade própria, que pode ser orientada para o belo, ou desviada para o mal);
- sociabilidade – dimensão social (é capaz de interagir com o meio e de se relacionar com pequenos ou grandes grupos);
- religiosidade – dimensão religiosa (o homem é capaz de Deus: “Criaste-nos para ti, Senhor e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.”- Sto. Agostinho). 

Devemos trabalhar o ser humano em sua totalidade, sabedores de que “a Verdade só se revela inteira ao homem inteiro” (Madre Ma. Helena Cavalcanti). Por isso, a linguagem, o conteúdo, as atividades, o relacionamento entre o grupo devem ser os mais adequados possíveis, para facilitar o anúncio e a vivência da Boa Nova. 

É importante observar também que “a atenção ao indivíduo não deve fazer esquecer que a catequese tem como destinatária a comunidade cristã como tal, e cada pessoa no âmbito desta. Se, de fato, é de toda a vida da Igreja que a catequese recebe legitimidade e energia, também é verdade que « o crescimento interior da Igreja, a sua correspondência ao desígnio de Deus dependem da mesma catequese ». Portanto, a necessária adaptação do Evangelho diz respeito e envolve também a comunidade enquanto tal”. (DGC 168). 

Algumas Características do Comportamento Humano: 

0 – 6 anos: 
· apaixonado por tudo que o cerca; 
· voltado para si mesmo; 
· aprende de forma concreta (vendo, apalpando, ouvindo...). 

7 – 9 anos: 
· abertura para o grupo; 
· relacionamento pessoal mais amplo; 
· idade propícia para a recepção dos sacramentos da Penitência e Eucaristia. 

9 – 12 anos : 
· volta-se para o mundo exterior; 
· mundo da lei ; 
· pressão do grupo; 
· pedagogia do herói. 

Adolescência: 
· passagem do pensamento lógico-concreto para o abstrato; 
· alargamento dos interesses, desejo de conhecer, compreender, discutir os problemas e encontrar soluções para os mesmos; 
· a concepção de Deus vai se espiritualizando cada vez mais - Deus é alguém que é diversidade e mistério, presença interior e amigo fiel; 
· ruptura com o passado; 
· desejo de se afirmar; 
· capacidade de admiração; 
· desejo de tudo conferir; 
· imensa afetividade; 
· necessidade de atividade; 
· sonhos e idealismo; 
· necessidade de amizade; 
· espírito de imitação. 

Juventude: 
· fase das grandes opções: o que ser (vocação), o que fazer (profissão); 
· consumista; 
· desinformada; 
· muitas vezes excluída da participação social e eclesial; 
· diversificada (os egoístas, os “instintivos”, os ideológicos, os construtores da paz); 
· em busca da maturidade (reconhecimento da própria identidade sexual, reformulação do projeto de si mesmo, maior autonomia decisória, inserção na realidade social e no mundo do trabalho). 

Adultos: 
· conhecimento de si mesmo; 
· maior enfrentamento da realidade; 
· bom relacionamento com os outros; 
· integração da personalidade; 
· busca de unidade interior. 

Conversando um pouquinho sobre... 

CATEQUESE DA TERCEIRA IDADE: 
O Diretório Geral para a Catequese apresenta a Catequese dos Anciãos, como “nova e específica tarefa pastoral para a Igreja, visto que em muitos países cresce o número de pessoas da terceira idade”. Independentemente da condição sócio-cultural do ancião e de sua experiência religiosa, é necessária “uma catequese da esperança que provém da certeza do encontro definitivo com Deus” (DGC 187). A catequese deve ajudar “a pessoa anciã a redescobrir as ricas possibilidades que estão dentro dela, ajudando-a a assumir papéis catequéticos no mundo das crianças, ..., dos jovens e dos adultos. Deste modo, se favorece um fundamental diálogo entre gerações, no âmbito da família e da comunidade” (DGC 188). 

CATEQUESE PARA PESSOAS PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS 
Vejamos o que o Diretório Geral para a Catequese afirma: “Toda comunidade cristã considera como pessoas prediletas do Senhor aquelas que, particularmente entre as crianças, sofrem de qualquer tipo de deficiência física e mental e de outras formas de dificuldades. Uma maior consciência social e eclesial e os inegáveis progressos da pedagogia especial fazem com que a família e outros lugares de formação possam hoje oferecer, a essas pessoas, uma adequada catequese à qual têm direito como batizadas e, se não batizadas, como chamadas à salvação. O amor do Pai para com estes filhos mais frágeis e a contínua presença de Jesus com o seu Espírito nos dão a confiante certeza de que toda pessoa, por mais limitada que seja, é capaz de crescer em santidade” (DGC 189). Evidentemente, esta catequese necessitará de uma preparação e abordagem diferenciadas, para melhor acolhê-los e inseri-los posteriormente na comunidade eclesial. É o que costumamos chamar de Catequese Especial. 

CATEQUESE DAS PESSOAS MARGINALIZADAS 
“Na mesma perspectiva deve ser considerada a catequese dirigida a pessoas em situações de marginalidade, ou próximas a ela, ou já caídas na marginalização, tais como os imigrados, os refugiados, os nômades, as pessoas sem habitação fixa, os doentes crônicos, os toxicômanos, os presos... A palavra solene de Jesus, que ensina como feito a Ele próprio todo gesto de bondade realizado a « um desses pequeninos » (Mt 25,40; 45), garante a graça de bem atuar em ambientes difíceis” (DGC 190). 

CATEQUESE PARA GRUPOS DIFERENCIADOS 
“Neste contexto estão incluídas a catequese para o mundo operário, para os profissionais liberais, para os artistas, os homens da ciência, para a juventude universitária... São categorias de pessoas vivamente recomendadas no âmbito do caminho comum da comunidade cristã. É claro que todos estes setores necessitam de abordagens competentes e de uma linguagem apropriada aos destinatários, mantendo plena fidelidade à mensagem que se pretende transmitir” (DGC 191). 

CATEQUESE AMBIENTAL 
Afirma o Diretório Geral para a Catequese, número 192: “O serviço à fé, atualmente, tem grande consideração pelos ambientes ou contextos de vida, uma vez que neles, a pessoa desenvolve concretamente a própria existência, recebe influências e influencia, e exerce as próprias responsabilidades”. Merece destaque a atenção às catequeses urbana e rural: “Para cada um desses ambientes será necessário criar um adequado serviço à fé, valorizando catequistas preparados, produzindo oportunos subsídios, recorrendo aos recursos dos meios de comunicação social...” (DGC 192) 

Importância da Formação 
Ao trabalhar com os catequizandos, independentemente de etapa do desenvolvimento ou condição sócio-cultural, o catequista deverá se esforçar para desenvolver na catequese um processo de: 
· Formação na Fé; 
· Formação da consciência;
· Formação para a Oração;
· Formação para o engajamento .

Conhecendo bem os catequizandos e o conteúdo, o catequista poderá escolher adequadas estratégias para os encontros, de acordo com a realidade de seu grupo. 

Uma Palavra Final sobre o Catequista 
“É preciso realçar sempre a importância do testemunho na pregação da Palavra, na catequese. Não fora isso, os catequistas poderiam facilmente ser substituídos por discos”. Como a criança e o jovem, principalmente, embora o adulto não seja excluído, necessitam de admirar aquele que ensina! Mesmo nas disciplinas do currículo escolar isso é uma constante. Quantos alunos deixam de gostar de uma matéria culpando o professor não só pela deficiência cultural ou falta de pedagogia mas, freqüentemente, por sua maneira inconveniente de ser, de se relacionar. Se isso acontece, por exemplo, com a matemática, que não se mete com sua vida particular, quanto mais com os ensinamentos de Jesus que exigem a pessoa inteira! 

Infelizmente, são freqüentes os casos em que alguns abandonam a catequese por causa da pessoa do catequista. A mesma ênfase que se dá à preparação intelectual se faz necessária ao aperfeiçoamento da conduta do catequista. Integrar o conhecimento numa vida correta inspirada pelos valores do Evangelho, para anunciar a palavra de Deus é a meta do catequista.


Não somos carteiros levando a Carta de Deus mas discípulos que trazem suas palavras na mente, no coração e na vida. 

Então é preciso ser perfeito? Não. Se fosse necessária a perfeição, ninguém estaria à altura; no entanto, certos requisitos são muito importantes, além da adequada qualificação intelectual e da cuidadosa preparação do encontro. Sua vida não pode desmentir o que sua boca fala. “Que vosso falar seja sim, sim, não, não.” (Mt 5,37). Não escandalizemos nossos irmãos com o divórcio entre a doutrina que ensinamos e a vida que levamos. Quem não aprecia uma pessoa simpática, afável com todos, exigente sem ser intolerante, mansa sem ser fraca, educada sem ser formal, simples sem ser vulgar, boa sem ser permissiva... e principalmente sincera e alegre na sua adesão a Cristo e à sua Igreja? 

Lembremo-nos do que o apóstolo Paulo nos ensina: “Tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo” (Fl 2,5). Sim, miremo-nos constantemente nesse Espelho, procurando imitá-l’O pela leitura e prática de suas virtudes. “Sede não somente ouvintes, mas praticantes do Evangelho” (Tg 1,22). Que o Espírito Santo, “memória de Jesus em nós”, “dobre o que é rígido e aqueça o que é frio” a fim de que Jesus possa contar conosco no crescimento de seu Reino. Reino de paz, justiça e amor! Só uma chama acende outra chama!” (Madre Ma. Helena Cavalcanti). 

Fonte: Adaptado Flávio
. Diretório Geral para a Catequese. Congregação para o Clero; 
. Catequese Renovada. CNBB; 
. Escritos de Me. Ma. Helena Cavalcanti; 
. Quem é o catequizando. Pe. Paulo César Gil.

Carta aos Catequistas - outubro mês missionário

“Dou graças a meu Deus todas as vezes que me lembro de vós. Sempre, em todas as minhas orações, rezo por vós com alegria, por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do evangelho, desde o primeiro dia até agora”. (FL. 1,3-5). 

Inspirada pela carta amorosa e transbordante de ternura que Paulo dirige ao povo de Filipos, pensei em cada um de vocês, catequistas, ao refletir essa leitura durante a Celebração Eucarística que nós, assessores, participamos todos os dias, aqui na CNBB. 

Nesse mês missionário, somos convocados a REFLETIR a nossa vocação de discípulo missionário, conforme nos aponta o Documento de Aparecida. Muito mais que refletir, somos convidados a nos RE-ENCANTAR, isto é, criar espaço para as moções do Espírito, entrar nesse movimento dinâmico e inovador, deixar-se CONDUZIR para que o encantamento inicial, a admiração, tome conta do nosso SER CATEQUISTA. Que tal voltar às fontes e fazer memória desse CHAMADO, desse ENCONTRO que marcou definitivamente a sua existência como catequista? 

“Tenho certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus.” Fl 1, 6 

Aquele que é razão desse encantamento, Jesus Cristo, que um dia nos chamou pelo nome lá onde nos encontrávamos, no cotidiano das nossas vidas, é fiel, continua presente de uma forma discreta e sutil, é o Deus da caminhada, da travessia, que pedagogicamente vai se revelando, é o Deus de Jesus Cristo. Revela-se do seu jeito não do nosso, por isso é sempre surpreendente e inusitado. 

Como catequista, quais os SINAIS de Deus, da sua ação amorosa, que lhe confirmam na MISSÃO? 

“É justo que eu pense assim a respeito de vós todos, pois a todos trago no coração,porque, tanto na minha prisão como na defesa e confirmação do evangelho, participais na graça que me foi dada”.FL 1, 7 

A filiação divina nos faz participantes da mesma GRAÇA, somos filhos e filhas do mesmo Pai, irmãos de Jesus Cristo, irmanados pelos laços do Espírito possibilitamos que a TRINDADE SANTA faça morada em nosso corpo, em nossa existência e na fragilidade das nossas limitações, expressamos a totalidade do amor de Deus. Comungamos da mesma GRAÇA, que nos possibilita realizar a missão com leveza e gratuidade, descobrindo em cada desafio, que o Senhor nos capacita com seus dons. Na sua missão como Catequista, você se sente agraciado, amado e capacitado por Deus? 

“Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós com a ternura de Cristo Jesus. E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é melhor”. FL 1, 8-10. 

A relação que Paulo estabelece com as comunidades é extremamente afetiva e terna, sente saudade, porque criou laços...Preocupa-se, porque sabe das dificuldades e das limitações humanas, por isso, exorta-os para que o amor cresça, supere as diferenças e seja determinante nas escolhas. 

Aprendemos de Paulo, que a vocação é expressão do amor de Deus e que o seguimento a Jesus Cristo concretiza-se nas relações que somos capazes de estabelecer com os outros. Será que a nossa catequese é capaz de possibilitar momentos de interação, de partilha, onde se acolhe e respeita o SER do/a catequizando/a na sua totalidade? Qual a nossa postura como catequistas, diante de uma sociedade discriminatória e excludente? 

Querido/as catequistas, agradecemos pelos catequistas discípulos missionários, DOM-GRAÇA, derramada sobre as nossas comunidades como expressão da fidelidade Daquele que vos chamou. 

Pela Comissão, Ir. Zélia Maria Batista, CF.