domingo, 28 de março de 2010

Da experiência nasce o conhecimento


Jean Piaget: Nascido na Suíça, em 1896, numa família rica e culta, aos 7 anos já se interessava por estudos científicos. Biólogo de formação, estudou Filosofia e doutorou-se em Ciências Naturais aos 22 anos. Em 1923, lançou A linguagem e o Pensamento na Criança, o primeiro de seus mais de sessenta livros. Faleceu em 1980, na Suíça.
O que ficou: É na relação com o meio que a criança se desenvolve, construindo e reconstruindo suas hipóteses sobre o mundo que a cerca.
Um alerta: O educador deve respeitar o nível de desenvolvimento das crianças. Não se pode ir além de suas capacidades nem deixá-las agir sozinhas.


A teoria do conhecimento, construída por Jean Piaget, não tem intenção pedagógica. Porém, ofereceu aos educadores importantes princípios para orientar sua prática. "Piaget mostra que o sujeito humano estabelece desde o nascimento uma relação de interação com o meio", explica Jean-Marie Dolle, professor emérito da Universidade Lumière-Lyon 2, na França, e especialista na obra piagetiana. "É a relação da criança com o mundo físico e social que promove seu desenvolvimento cognitivo", completa o professor Mário Sérgio Vasconcelos, coordenador do curso de pós-graduação em Psicologia da Universidade Estadual Paulista, campus de Assis.

Para Piaget, a forma de raciocinar e de aprender da criança passa por estágios. Por volta dos 2 anos, ela evolui do estágio sensório-motor, em que a ação envolve os órgãos sensoriais e os reflexos neurológicos básicos (como sugar a mamadeira) e o pensamento se dá somente sobre as coisas presentes na ação que desenvolve, para o pré-operatório. "Nessa etapa, a criança se torna capaz de fazer uma coisa e imaginar outra. Ela faz isso, por exemplo, quando brinca de boneca e representa situações vividas em dias anteriores", explica Vasconcelos. Outra progressão se dá por volta dos 7 anos, quando ela passa para o estágio operacional-concreto. Aqui, consegue refletir sobre o inverso das coisas e dos fenômenos e, para concluir um raciocínio, leva em consideração as relações entre os objetos. Percebe que 3 — 1 = 2 porque sabe que 2 + 1 = 3. Finalmente, por volta dos 12 anos, chegamos ao estágio operacional-formal. "O adolescente pode pensar em coisas completamente abstratas, sem necessitar da relação direta com o concreto. Ele compreende conceitos como amor ou democracia."

Essas informações, bem utilizadas, ajudam o educador a melhorar sua prática. "Devemos observar os educandos para tornar os conteúdos pedagógicos proporcionais às suas capacidades", recomenda Dolle. Para Vasconcelos, a criança é um pesquisador em potencial. "Levantando hipóteses sobre o mundo, ela constrói e amplia seu conhecimento." Nesse processo, o mestre, tem papel fundamental. Ser construtivista não é deixar o discípulo livre, acreditando que evoluirá sozinho. "O mestre precisa proporcionar um conflito cognitivo para que novos conhecimentos sejam produzidos", endossa Ulisses Araújo, professor do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

"Uma máxima da teoria piagetiana é que o conhecimento é construído na experiência", afirma Araújo. Isso fica claro quando se estuda a formação da moral na criança, campo a que o pensador suíço se dedicou no início da carreira e no qual Araújo se especializou. "Para Piaget, o que permite a construção da autonomia moral é o estabelecimento da cooperação em vez da coação, e do respeito mútuo no lugar do respeito unilateral", explica Araújo. "Dentro do ambiente de ensino, isso significa democratizar as relações para formar sujeitos autônomos."

Em Salvador, a Escola Municipal Barbosa Romeo tem nessa questão uma das maiores preocupações. De acordo com a coordenadora pedagógica Elisabete Monteiro, além dos educadores trabalharem com projetos, o que elimina a simples transmissão de conhecimento, a equipe usa o respeito mútuo como estratégia para integrar os educandos ao ambiente de ensino. Boa parte da clientela vem do Projeto Axé, que atende crianças em situação de risco e com muita dificuldade na aquisição da leitura e da escrita. "Temos um conselho de ensino forte e os representantes de grupo atuantes. O que vai ser trabalhado no grupo é discutido coletivamente", explica Elisabete.

Fonte: Site Net - Adaptado Flávio.

sábado, 20 de março de 2010

Competências e Catequese

Tudo o que você precisa conhecer sobre o assunto mais falado no mundo da educação. Esse novo jeito de ensinar, usado por educadores, em muito pode ajudar na Catequese com seu grupo de catequizandos.

Lembre-se dos últimos encontros catequéticos que você deu: reuniu o grupo, falou, explicou, deu exemplos, celebrou e se desdobrou para que a turma entendesse o tema. Alguns até levantaram a mão para fazer uma ou outra pergunta, mas, no geral, todos ficaram quietos, "prestando atenção".

Será que eles estavam realmente interessados? Depende. É consenso entre os pensadores da educação que a criança só interioriza o que você ensina se estiver de alguma forma, ligada ao conteúdo por um desafio, uma motivação. Ou se perceber a importância e a aplicação de tudo aquilo que você quer transmitir. Essa contextualização é uma das bases do ensino por competências, palavra de ordem da educação no Brasil e em vários outros países.

O objetivo dessa abordagem é ensinar aos catequistas o que eles precisam aprender para ensinar seus catequizandos a serem cidadãos que saibam analisar, decidir, planejar, expor suas idéias e ouvir as dos outros. Enfim, para que possam ter uma participação ativa sobre a sociedade em que vivem. Uma concepção nobre, mas que na grande maioria das catequeses ainda está por ser decifrada. Quando se trata de aplicá-la na turma, sobram dúvidas e falta quem possa solucioná-las. Não há uma receita simples para aprender a ensinar dentro dessa nova concepção. Pode-se começar entendendo como ela surgiu.

Até a conferência de 1990 em Jomtien, na Tailândia — onde foi elaborada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos —, os processos educativos estavam calcados no que o físico e educador paulistano Luiz Carlos Menezes chama de ensino cartorial. Ou seja, um agrupamento de assuntos para memorizar ou exercícios para praticar à exaustão. Naquele encontro, concluiu-se que havia necessidade de mudanças estruturais. Ficou claro que reformar a educação era uma prioridade mundial e as competências seriam o único caminho para oferecer, de fato, uma educação para todos. Tudo havia mudado: a sociedade, o mercado de trabalho, as relações humanas... só a educação continuava a mesma.

Então, estava tudo errado? Não. O contexto social de épocas passadas aceitava aquela formação. O problema é que esse contexto não existe mais. A sociedade tem hoje outras prioridades e exigências, em que a ação é o elemento chave. Simplesmente dar o conteúdo e esperar que ele seja reproduzido não forma o indivíduo. Quem não estiver preparado para o trabalho conceitual e criativo pode estar fadado à exclusão.

A catequese agora tem também o papel de ser espaço onde as relações humanas são moldadas. Deve ser usada para aprimorar valores e atitudes, além de capacitar o indivíduo na busca de Deus. Mas, afinal, o que são essas competências? E como desenvolvê-las? O dicionário Aurélio define essa palavra como "qualidades de quem é capaz de apreciar e resolver certos assuntos". Ela significa ainda habilidade, aptidão, idoneidade. Muitos conceitos estão presentes nessa definição: competente é aquele que julga, avalia e pondera; acha a solução e decide, depois de examinar e discutir determinada situação, de forma conveniente e adequada. É ainda quem tem capacidade resultante de conhecimentos adquiridos.

Sim, agora são todos esses os objetivos que se deve perseguir ao elaborar um projeto pedagógico. Para Philippe Perrenoud, sociólogo suíço especialista em práticas pedagógicas, competência em educação é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos — como saberes, habilidades e informações — para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações. Ele cita dois exemplos:

1) Decidir seu caminho em uma cidade desconhecida requer as capacidades de ler um mapa, localizar-se e pedir informações. E também diversos saberes, como ter noção de escala, elementos da topografia ou referências geográficas.

2) Saber votar conforme seus interesses mobilizam as capacidades de se informar e preencher a cédula, bem como os seguintes saberes: conhecimento de instituições políticas, do processo de eleição, de candidatos, de partidos, dos programas de governo, das idéias democráticas etc.

Esses são exemplos simples. Outras necessidades estão ligadas a contextos culturais, profissionais e condições sociais. "Os seres humanos não vivem todos, as mesmas situações e as competências devem estar adaptadas a seu mundo", teoriza Perrenoud. "Viver na selva das cidades exige dominar algumas delas; na floresta virgem, outras. Da mesma forma, os pobres têm problemas diferentes dos ricos para resolver." Como se pode ver, as definições são complexas, muitas vezes imprecisas. Diante desse quadro, a primeira dúvida que surge diz respeito aos conteúdos. Eles deixam de existir? Não.

Ninguém aprende nada desvinculado do conhecimento teórico. Trata-se de trabalhar essas informações de forma diferente, dando-lhes significado. É o que se chama de ensino contextualizado. Uma coisa é você explicar no grupo um tema. Outra é comparar e testemunhar a vida com este tema. Ocorre que o tempo é um parceiro cruel, todos vão argumentar. Com certeza. Um tema não se esgota em um encontro. É nessa escolha que entra o conceito de situações-problema, nas quais o conteúdo é apenas um dos elementos a ser levados em conta na hora de abordar qualquer conteúdo. A motivação é criada a partir da geração de conflitos.

Resolver um desafio estimula a turma. É mais importante que o catequizando saiba lidar com a informação do que simplesmente retê-la. Depois de lançada uma tarefa em que todos se envolvam, até uma catequese expositiva pode ter lugar. Nesse caso, ela estará inserida na resolução de um problema concreto e a teoria ganhará uma finalidade aplicável. Trabalhar assim significa o fim do conteúdo pelo conteúdo. Se o objetivo é estudar uma situação real, do cotidiano, então o conhecimento também não pode estar separado. Se todos os saberes devem se unir para atender às necessidades do catequizando, então os catequistas das diversas idades também precisam sentar juntos para definir os temas? Sim.

Sem planejamento ninguém vai a lugar nenhum, o primeiro passo é repensar o projeto pedagógico, com o plano e a ação da catequese voltados verdadeiramente para a formação de indivíduos independentes e críticos. Sem perder de vista as necessidades do meio em que o catequizando vive. E isso ainda não é tudo. De nada adianta trabalhar dessa maneira se a avaliação não muda. Mas, como avaliar competências? A observação é a melhor forma de saber se houve ou não o aprendizado. Ela precisa ser feita a todo momento, com o catequista prestando atenção ao que cada catequizando está fazendo, como reage aos estímulos, o que atrai seu interesse. Do contrário, o catequista não vai ajudá-lo a superar suas dificuldades. Mais uma vez, Perrenoud mostra um caminho para uma avaliação eficiente:

1) As atividades e suas exigências precisam ser conhecidas antes de iniciá-la.
2) Deve-se incluir apenas atividades contextualizadas.
3) Não pode haver nenhum constrangimento de tempo fixo.
4) É necessário exigir uma certa forma de colaboração entre os pares.
5) O educador tem de levar em consideração as estratégias cognitivas e metacognitivas utilizadas pelos educandos.
6) Ela deve contribuir para que os educandos desenvolvam ainda mais suas capacidades.
7) A correção precisa levar em conta apenas os erros de fundo na ótica da construção de competências.

Ou seja, o trabalho torna-se mais sensível do que técnico. Trazendo para a catequese, temos que o final de cada etapa, passa a ser resultado de muitos fatores, não apenas de uma "provinha". É o progresso e a evolução do catequizando ao longo da caminhada na fé e vida da comunidade. Ficou assustado com o tamanho do desafio? Todos sabem que, na prática, as mudanças ainda vão consumir muito tempo até serem bem assimiladas. Até lá, continuarão existindo as boas e as más maneiras de catequizar. Mas que ninguém duvide: esse novo jeito de educar, que dá oportunidade a todos de aprender, será "a" referência em educação e, mais cedo ou mais tarde, servirá para diferenciar os melhores catequistas e as comunidades que merecem destaque. Por um motivo simples, quem não se atualizar vai formar pessoas fora do seu tempo.

Adaptado Flávio - Revista Nova Escola

Ensinar bem é saber elogiar

A qualidade do elogio não está nas palavras, mas na maneira como ele é feito. E isso na catequese pode ter sérias conseqüências. Elogios de mais ou de menos podem ser igualmente prejudiciais para o catequizando. O discurso de admiração pode ser dividido em duas categorias: o valorativo e o descritivo. O valorativo tem um caráter destrutivo, independentemente de conter uma crítica positiva ou negativa. A frase "você é muito inteligente" é um exemplo. Nela está contido um juízo de valor. Esse tipo de exaltação gera dependência. A criança passa a fazer as coisas com o objetivo de receber a aprovação das pessoas e vai perdendo a capacidade de se auto-avaliar. Imagine que na catequese, um catequizando muda uma mesa de lugar. Se em vez de afirmar "Você é muito forte" você disser "Obrigado, eu não conseguiria carregar isso sozinha", o julgamento sobre ser forte ou não fica a cargo dele. O catequizando que tem sempre suas ações enaltecidas de forma valorativa pode ficar com receio de desapontar os outros. "É uma carga muito grande ser inteligente ou bem-comportado durante o tempo todo". Já o elogio descritivo é benéfico e contribui para que o catequizando adquira consciência da sua própria evolução. Expressões como "Parabéns. Seu texto está muito bem redigido. Você conseguiu captar bem o tema proposto", podem ser ditas em particular ou de maneira que todos ouçam, pois a turma toda aprende com os erros e acertos de um colega. "Ser descritivo dá trabalho para o catequista". É mais fácil escrever palavras como "lindo" ou "parabéns" do que indicar os pontos fortes presentes em uma atividade. Se a turma for numerosa, você pode fazer essas intervenções em alguns trabalhos apenas. Por meio de um revezamento, ao final de determinado período todos os catequizandos terão suas atividades avaliadas. Para quem não está acostumado a atuar assim, faça de conta que está descrevendo o tema para alguém que não leu ou o desenho ou projeto para alguém que não viu.
Três razões para elogiar:
1) Por iniciativa: as boas idéias têm de ser valorizadas mesmo que o produto final seja ruim. Em nossas catequeses esse tipo de elogio não é comum.
2) Por esforço: o empenho do catequizando precisa ser sempre reconhecido, caso contrário ele poderá se sentir desestimulado no futuro.
3) Por resultado: há catequizandos que aprendem com mais facilidade que os outros. Fiquem atentos para não valorizar somente os bons resultados, já que todos precisam de elogios.
Fonte: adaptado Flávio.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mães Terceirizadas


Outro dia minha mãe estava me explicando o que é terceirização. Ela disse que a empresa escolhe contratar outra empresa, em vez de ter seus empregados. Ela explicou que tem empresa que terceiriza o transporte, os atendentes, os faxineiros. Eu entendi. E pensei que em casa também tem trabalho terceirizado. Tem faxineira que vem limpar a casa e tem um moço que vem cortar a grama do jardim. E eu fiquei pensando, pensando. E descobri uma coisa que acho que pouca gente descobriu. Eu descobri que a minha mãe é terceirizada. É sim. Você quer ver? Quem me traz da escola? O motorista da perua. Quem me dá comida quando eu chego? A empregada. Quem cuida de mim quando eu estou doente? A minha avó. Está vendo? Não estou certa? Mas, de verdade, eu não queria que a minha mãe fosse terceirizada. E vou tentar explicar por quê. A gente fica dentro da barriga da mãe nove meses. Neste tempo é só a gente e a mãe. Depois nasce, mas não se separa de vez, porque a gente mama, fica no colo. Só depois de um ano é que começa a andar. Deus, pensando no nenê, fez com que ele fosse se separando devagar, devagarzinho. Mas não foi o que aconteceu comigo. Quando eu era bem pequenininha, minha mãe trabalhava fora. Tinha dia que ela saía e eu ainda não tinha acordado, e tinha dia que ela chegava e eu já estava dormindo. Então ela teve de me colocar no berçário. Eu passava mais tempo com a moça lá da escola do que com ela. Depois de um tempo eu chorava quando saía do colo da moça, e minha mãe ficava chateada com isso. Coitada! Eu queria minha mãe e ela me queria, mas ela não podia ficar. E aí ela se sentia culpada e até trazia presentes para mim. Aí eu pensei. Ah! se a gente fosse bem rico e não precisasse trabalhar... Mas fiquei sabendo que gente rica também sofre do mesmo mal. A mãe não precisa trabalhar para ganhar dinheiro, mas vive cheia de compromisso, e quem cuida do filho é a babá e o motorista. Aí eu pensei: bom era o tempo da minha avó que nunca trabalhou fora. Devia ser uma delícia ter mãe o dia inteiro. Mas minha mãe disse que a vovó não ficava o tempo todo com ela porque tinha de cuidar da casa, cozinhar, passar roupa, e o pior, que nunca brincou com ela. Então também antigamente não era sempre bom. Minha mãe leu no jornal que uma diretora de empresa, uma mulher muito importante, teve filhos gêmeos, mas não parou nem para dar de mamar. Logo depois de ter os nenéns ela já estava de volta na empresa. E mais: disse que ficava com os filhos meia hora todo dia pela manhã. Ainda bem que a minha mãe fica comigo as horas que ela está em casa. Eu gosto mesmo quando ela está em casa, mas não no telefone. Como ela fala no telefone! Gosto quando ela me pergunta como foi a minha aula, o que eu descobri, o que eu aprendi ou o que eu inventei naquele dia. Gosto quando ela lê histórias e me ensina coisas. E eu aprendo rápido. Já sei falar todo o Pai-nosso que ela me ensinou um pedacinho cada noite. Nossa! Pensando bem, a minha mãe passa poucas horas comigo, mas não é uma mãe terceirizada. Eu sou muito importante para ela e, mesmo quando ela chega cansada, tem vontade de saber de mim. Ela me dá orientação. Ela me dá atenção e quer saber do meu dia e dos meus sonhos. Que bom! Tem pai e mãe reclamando que os filhos adolescentes não ligam pra eles. Eu acho que isso acontece porque, quando eram pequenos, os pais não ficaram com eles o tempo que as crianças precisavam. Talvez ele tenham sido pais terceirizados. Não. Não pense que eu quero que todas as mulheres do mundo sejam só mães. Durante muito tempo foi assim e o mundo não era melhor. Eu gosto que minha mãe trabalhe. E quero que continue. Ela precisa ter a vida dela. Ela gosta do que faz. Fica feliz quando consegue fazer boas coisas no trabalho. E aí eu fico feliz por ela estar feliz. Mas eu estou escrevendo tudo isso para lembrar a algumas mulheres que ser mãe não é só ter um filho, é cuidar dele. Mãe não precisa ficar junto o dia todo, mas precisa perguntar e ouvir as descobertas que o filho faz, precisa estar junto quando a gente está bem alegre com as coisas que inventa, e também precisa estar bem perto quando a gente sente medo ou tristeza. Precisa contar histórias, precisa brincar com a gente. Não precisa dar presente, precisa estar presente quando está por perto e mesmo de longe pode, de vez em quando, telefonar. Quando a gente é pequeno precisa tanto de mãe!

Fonte: Ilídia de Castro

Educação na infância: erros mais comuns...

Qual papai ou mamãe nunca parou diante de seu filho e já se perguntou: "Onde foi que eu errei?". Malcriações, birras e manipulações de crianças são atitudes que normalmente levam os pais a fazerem tal pergunta. Não se desespere, afinal educar não é fácil. Mas também não é um bicho papão. Aprendemos com os erros e quanto mais cedo a falha for identificada, mais fácil de se evitar conflitos entre pais e filhos.
Existem alguns erros na hora de educar os filhos que parecem bobos, mas que se reforçados e repetidos são capazes de prejudicar o desenvolvimento da criança, mesmo que a intenção dos pais seja a melhor.

Começando pela alimentação que é uma das principais queixas dos pais. "Meu filho não come", "Tenho que ficar correndo atrás do meu filho para que ele coma" são frases bastante ouvidas pelos pais. Para evitar esse aborrecimento atitudes simples podem ser realizadas desde cedo. Nada de aviãozinho, televisão ou barganha para que a criança coma. A criança deve entender que sem a comida poderá ficar fraca, com fome e até doente. Qualquer atitude que faça com que a criança coma sem prestar atenção na comida é ruim. A alimentação deve ser colorida, diversificada e balanceada para a criança não enjoar e aprender a comer de tudo e assim evitar qualquer distúrbio alimentar, como obesidade, bulimia ou anorexia.

Mimar demais a criança não é bom - Outro velho excesso praticado pelos pais: fazer tudo pela criança, mesmo tarefas que já pode realizar sozinha, superprotegendo o filho, é prejudicial ao desenvolvimento social. Normalmente essas crianças crescem se achando o centro do mundo, mandando e desmandando em tudo e exigindo até o que deve ser feito no jantar. Não conseguem se adaptar na escola, sentem-se inseguros e tornam-se inseguros e irresponsáveis justamente porque nesse lugar ele será apenas mais um, e não o dono do pedaço. Saiba dizer "não" e dê bronca quando realmente for preciso.

Outro erro comum é negar a dor da criança. Quando a criança rala o joelho numa brincadeira a mamãe com toda boa intenção do mundo tenta amenizar a dor dizendo: "Não foi nada, já passou". Fazendo assim, a criança acha que os pais não se sensibilizam a sua dor e tendem a procurar uma outra pessoa, deixando uma mágoa. Ou então, se for excessiva essa atitude dos pais a criança fica insegura aos seus sentimentos não entendendo se sente dor, raiva ou medo já que seus pais dizem que não é nada. Quando os pais chamam a quina da estante de boba quando a criança bate com a cabeça é tirar da criança a responsabilidade de cuidados consigo mesma e colocar a culpa no objeto. Isso pode colocar a vida da criança em risco em situações mais graves. Quando ocorrer novamente o incidente, converse sobre a importância de se evitar acidentes e dos cuidados que a própria criança deve ter. Deixar o filho ganhar constantemente um jogo só para não vê-lo frustrado com a perda já que não tem a mesma capacidade que a sua faz com que a criança aprenda que a vida é só ganhar. O jogo faz com que a criança espere a sua vez, aceite regras e limites impostas, aprenda a negociar e aceite que a vida é feita de ganhos e perdas.

E a máxima da educação é o exemplo. A criança aprende com exemplos de quem ela confia que são os pais. Se os pais não têm boas maneiras, não pedem, por favor, não dizem obrigado ou bom dia, comem assistindo televisão ou brigam muito passam esses valores para a criança e é isso que irá fazer. Os filhos são o espelho dos pais.

Dicas
Não critique ou elogie demais o seu filho. Tanto um como o outro é prejudicial. O bom senso é a melhor medida.
Não se culpe pelo erro, filho não vem com manual de instruções. Só não insista no erro já detectado.
Na dúvida, procure sempre um especialista para te orientar.

Fonte: Bruno Rodrigues - Adaptado Flávio.

domingo, 14 de março de 2010

Como criar uma Catequese Acolhedora

Dar carinho é só o começo. Você mostra que se importa com os catequizandos quando ouve o que eles sentem e valoriza as capacidades e os gostos de cada um. Assim, ajuda a formar pessoas mais felizes e cidadãos responsáveis. Hoje em dia é assim: eu preciso, eu quero, eu vou. Cada vez mais a sociedade estimula crianças e adolescentes a ter atitudes individualistas, que passam bem longe da reflexão e da responsabilidade com o próximo.

O jovem só se sensibiliza quando se sente parte de um grupo — a família, a turma da catequese, a sociedade — e entende que, em cada um deles, sua presença e sua contribuição são importantes. Como a catequese proporciona isso? Oferecendo ao catequizando o direito de ser ouvido e compreendido.

Os catequistas que trabalham dessa maneira, dão ao catequizando, caminhos para reconhecer seus sentimentos desde pequeno. Daí para que ele se torne responsável por suas atitudes é um pulo. Para que você crie esse ambiente acolhedor, é necessário entender o que é afetividade e por que ela é fundamental na formação de pessoas felizes, éticas, seguras e capazes de conviver com os outros e com o planeta. Veja a seguir como dosar o conteúdo e a educação dos sentimentos para formar verdadeiros cidadãos:

É preciso estimular a criança a dizer o que sente
Imagine se um catequizando de 5 anos chegasse um dia dizendo que queria falar com você e emendasse: "Meus pais estão brigando muito. Acho que eles vão se separar e estou com medo. Por isso tenho batido nos meus colegas". Absurdo. Crianças dessa idade dificilmente têm essa capacidade de expressão. Muito menos os adolescentes. Falar de sentimentos é difícil, principalmente na falta de um ambiente propício, que dê segurança e proteção suficientes para expor dores, medos e incertezas. Se o catequista estimula a criança a expressar o que sente, logo vê mudanças significativas no seu comportamento.

Foi o que aconteceu com Daniel, de 10 anos. Em 2004 ele foi matriculado na 4ª série do Colégio Ricaro, em São Paulo. Tinha dificuldades em fazer amigos e agia de forma bastante agressiva. Com muita paciência e conversa, a professora ganhou a confiança de Daniel, que passou a contar os problemas que tinha em casa. Aos poucos, ela descobriu que o garoto sentia muita falta da mãe, que via raramente. Sem estímulo para expressar sua carência, Daniel só sabia agredir. Ao encontrar a compreensão da professora, fez amizade com os colegas e passou a ver na escola uma aliada. "Pagar com a mesma moeda a agressividade de uma criança é pior. Trabalhamos muito com o Daniel para que, quando estivesse com raiva, não descontasse nos outros. Ele aprendeu a falar o que sentia", conta Sílvia Verônica Alkmin Piedade, coordenadora da escola.

Todo esse cuidado, que parece ir além das obrigações do catequista com o conteúdo, reflete no rendimento do catequizando. "É tarefa do educador, ser justo e generoso com sua turma", afirma Yves de La Taille, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. A justiça, segundo ele, está ligada a tudo aquilo que é de direito do ser humano. Dar uma boa catequese, por exemplo, é dever do catequista. Mas se ele fica com a criança meia hora depois da catequese para atender a uma dificuldade, isso é generosidade. Além de sua conduta ser um exemplo, demonstra que se importa com o catequizando.

Bater papo sobre valores funciona mais do que sermão. Os catequizandos precisam pensar sobre as próprias atitudes e reconhecer os sentimentos que movem suas ações. Quando eles fazem isso, surgem oportunidades de, na prática, construir valores positivos. No caso de um catequizando mentir, por exemplo, o ideal é conversar reservadamente com ele questionando as conseqüências dessa atitude, de como os coleguinhas vão agir ao descobrir a verdade. E se há furto na sala, o melhor é bater um papo, na hora, sobre valores importantes como honestidade, justiça e confiança. Construir valores não é escrever no quadro que temos de ser solidários ou que não podemos bater nos colegas. Isso se faz dando ao catequizando a oportunidade de se colocar no lugar do outro e achar soluções alternativas para seus conflitos, sem agressão.

A questão, no entanto que nos inquieta é como a catequese deve interferir na formação dos valores da criança? A construção de valores e atitudes cabe à catequese, sim. O seu papel, catequista, é identificar entre tantas opções o que pretende construir com sua turma.

Fonte: Adaptado Flávio - Revista Nova Escola – M.Cavalcante

sábado, 13 de março de 2010

Iniciação a Vida Cristã - Estudos da CNBB 97

INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ - ESTUDOS DA CNBB Nº 97

RESUMO SINTÉTICO - Pe. Almerindo da Silveira Barbosa

INTRODUÇÃO

Em 1974 a CNBB publicou os primeiros documentos voltados para a Iniciação Cristã: Pastoral da Eucaristia e Pastoral dos Sacramentos da Iniciação Cristã. Estes, orientados para os Sacramentos da Iniciação.
A preocupação há 35 anos estava voltada para os Sacramentos ou à Pastoral dos Sacramentos. Hoje, ao retornar, sobre a mesma Iniciação Cristã, estamos nos dedicando a um dos temas mais desafiadores da nossa ação evangelizadora. Como levar as pessoas a um contato vivo e pessoal com Jesus Cristo? Como fazê-los mergulhar nas riquezas do Evangelho? Como realizar uma iniciação de tal modo que os fieis perseverem na comunidade cristã? Como formar verdadeiros discípulos missionários de Jesus Cristo?
Pretendemos nos debruçar não tanto sobre a “preparação para receber os sacramentos”, mas sim sobre o processo e a dinâmica pelas quais “tornar-se cristãos”, processos que vão além da catequese entendida como período de maior aprendizado e orientado para um sacramento.

I – INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ – POR QUÊ?

Santo Agostinho relata em seu livro Confissões que “tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”. Muitos, sem saber, estão em busca dessa beleza. Agostinho descobriu tarde a sedução da pessoa e da proposta de Jesus. Mas, talvez, isso tenha contribuído de certo modo para a entrega mais intensa, com o conhecimento de causa e com a consciência do vazio deixado por tantas outras buscas.
Esta procura por Deus está em todos nós. Muitos são os que andam inquietos pelo mundo, descontentes com propostas que ainda não conquistaram sua mente e seu coração. O ser humano vive à procura de respostas sobre a vida e, no fundo, sobre si mesmo. E estas perguntas continuam no coração do homem e da mulher que querem saber quem são, por que estão neste mundo, que sentido têm as escolhas que a vida exige de nós.
Na abertura da carta Fides et Ratio João Paulo II se refere a essa necessidade, que pertence a nossa própria natureza: “a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. No Catecismo da Igreja Católica afim que “o homem é capaz de Deus”: “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem... e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (n 27).
Quem chega à idade adulta com essas indagações precisa de mais do que uma síntese doutrinal. O adulto cheio de perguntas quer descobrir sentido na vida, nos seus relacionamentos no mistério de Deus. Para isso, vai ser necessário um verdadeiro mergulho no mistério, com uma experiência cada vez mais profunda das diversas dimensões da vida cristã. Isso não se faz num “cursinho” rápido e nem mesmo numa catequese isolada de outros aspectos da vida eclesial.
Jesus evangelizou os adultos e abençoou as crianças. Nós muitas vezes fazemos o contrário. As crianças têm todo direito de viver a experiência do amor de Deus. Mas adultos é que vão descobrindo o que, sem saber, seu coração sempre buscou. Uma Igreja em estado permanente de missão tem que responder a essa necessidade. “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso uma orientação decisiva” (DAp, n 12).
Tudo começa com uma busca (cf. Jo 1,38) “que procurais?” pergunta Jesus. E isso gera um encontro (cf. Jo 1,38-39): “onde moras?” dizem eles. No fundo estão perguntando: “como te conhecemos melhor?” e aí Jesus responde: “Vinde e vede”. Depois disso produz uma conversão: eles vão, vêem e decidem seguí-lo. Assim o processo vai produzindo comunhão: permanecem com ele (c.f Jo 1,39), acompanham seu caminho, compartilham até seu poder de expulsar o mal e curar (cf. Mt 10,1).
Movidos por esse novo desafio poderíamos perguntar e refletir um pouco mais sobre o que é de fato a iniciação cristã?

II – O QUE TEMOS EM VISTA QUANDO FALAMOS EM INICIAÇÃO CRISTÃ? – O QUE É?

Diante da sede de infinito, presente em todo coração humano, Deus nos dá uma resposta em Cristo Jesus. Como Pedro, confessamos a nossa perplexidade e a nossa confiança nessa resposta de Deus: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).
Consciente disso, a Igreja proclama “que a chave, o centro e o fim de toda história humana se encontra em seu Senhor e Mestre” (GS n 10,2). Com Jesus se faz presente o Reino de Deus, o Mistério revelado entre nós.
Jesus ao falar do Reino chama-o de mistério: “A vós é confiado o mistério do Reino de Deus” (Mc 4,11). Ser cristão é participar desse mistério e se comprometer com ele que é um segredo que se manifesta somente aos iniciados. Não se tem acesso ao mistério através de um ensino teórico, ou com aquisição de certas habilidades, mas de uma maneira ou outra a pessoa precisa ser iniciada a essas realidades maravilhosas através de experiências que marcam profundamente.
Etimologicamente “iniciação” provém do latim “in-ire”, ou seja, ir bem para dentro. É um tempo de aproximação e imersão em novo jeito de ser; sinaliza uma mudança de vida, de comportamento, com a inserção num novo grupo.
Numa cultura moderna quase pós-cristã a Igreja se vê diante da necessidade de uma real iniciação, para formar cristãos que realmente assumam o projeto do Reino. Daí a necessidade de formas de catequese que estejam verdadeiramente a serviço da iniciação cristã.
O documento de Aparecida é enfático ao falar da necessidade urgente de assumir o processo iniciático na evangelização: “ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora. impõe-se a tarefa irrenunciável de oferecer uma modalidade de iniciação cristã, que além de marcar o quê também dê elementos para o quem , o como e o onde se realiza” (n. 287).
O objetivo final, conteúdo e origem da iniciação cristã é fazer-nos chegar ao Pai, por Jesus Cristo e participar de sua natureza divina (cf DV, n. 2). A iniciação cristã é graça benevolente e transformadora, que nos precede e nos cumula com os dons divinos em Cristo. Ela se desenvolve dentro do dinamismo trinitário: os três sacramentos, numa unidade indissolúvel, expressam a unidade da obra trinitário na iniciação cristã: o Batismo nos torna filhos do Pai, a Eucaristia nos alimenta com o Corpo de Cristo e a Confirmação nos unge com unção do Espírito.
Esta obra de amor de Deus se realiza na Igreja e pela mediação da Igreja. É ela que anuncia a boa nova, acolhe e acompanha os que querem realizar um caminho de fé.

III – INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ. COMO?

“Eis o Cordeiro de Deus. Ouvindo essas palavras, os dois discípulos de João seguiram a Jesus (cf. Jo 1,36-37). Depois que sentou à mesa com eles, tomou o pão pronunciou a benção, partiu-o e deu-os a eles” (lc 24,30-31). Esse foi um encontro que transforma a vida.
A vida dos primeiros discipulos mudou a partir do encontro com Jesus de Nazaré e seu mistério. Recriados pela fé na vitória da ressurreição e animados pelo dom do Espírito, tornaram-se para sempre participantes da sua vida, membros do seu corpo, celebrantes do seu mistério, testemunhas do seu Reino.
Nossas Igrejas particulares de muitas formas têm convidado e conduzido ao caminho de Jesus. Sabem que o itinerário da iniciação cristã inclui sempre “o anúncio da Palavra do evangelho, que implica a conversão, a profissão de fé, o Batismo, a efusão do Espírito Santo, o acesso Pa comunhão eucarística” (CIC n. 1229).
Uma herança eclesial e protótipo de caminho que conduz à vida cristã é o catecumenato batismal. Ele é uma escola preparatória à vida cristã. Um processo formativo e verdadeira escola de fé. Nas ultimas décadas, a situação pastoral tem feio a Igreja perceber que há também uma necessidade de catecumenato pré-batismal (CIC n. 1231).
O modelo de catecumenato apresentado pelo RICA possibilita a elaboração de itinerários diversos, de acordo com as necessidades de cada realidade. Uma característica essencial é o seu caráter cristocêntrico e gradual.
O catecumenato é organizado em quatros tempos: Pré-Catecumenato que é o tempo de acolhimento na comunidade cristã. É o momento do primeiro anúncio – querigma; Catecumenato que é o tempo mais longo para a catequese, reflexão e aprofundamento. Vivência cristã e o entrosamento com a Igreja; Purificação e Iluminação que é o tempo da preparação próxima para os sacramentos que se realiza no tempo da quaresma; Mistagogia que é o tempo de aprofundamento e maior mergulho no mistério cristão e a vivência na comunidade.
Estes quatros tempos são permeados por grandes celebrações ou etapas (ingresso na Igreja como catecúmeno ou rito de admissão, eleição ou inscrição do nome, celebração dos sacramentos iniciais) das quais participam membros da comunidade, parentes e amigos.
Dentro de cada tempo vão acontecendo progressos na caminhada da educação da fé. Além das celebrações (etapas) que marcam a passagem de um tempo para outro, há ritos especiais dentro de cada tempo, feitos no meio da semana para marcar os avanços que vão sendo gradativamente atingidos.

IV – INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ – PARA QUEM?

A mulher samaritana disse então a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água” (Jo 4,15). A samaritana faz um pedido a Jesus no meio de uma conversa em que ambos ouviram e foram ouvidos. Ela se sente capaz de falar e, falando e sendo ouvida, permite que Jesus responda de acordo com a sua necessidade. Esse falar e ouvir foram muito importantes para ela. Ajudaram esclarecer duvidas e descobrir que Jesus era o Messias.
Por isso, inspirados pela ação de Jesus, consideremos os iniciantes como interlocutores e não como meros destinatários no processo de iniciação à vida cristã.
Jesus se aproxima da Samaritana pedindo água. Dar água era sinal de acolhida, hospitalidade, solidariedade. Em troca dessa hospitalidade, Jesus oferece sua própria água. Ao falar do dom de Deus, de água viva que Ele é capaz de dar, Jesus instiga a curiosidade da mulher. Ainda não reconhece o dom de Deus em Cristo. Ela não conhece outra água a não ser a daquele poço e pensa que se há de tirá-la com esforço humano. Não está acostumada à idéia da gratuidade e nem conhece o amor de Deus. Ela conhece o dom de Jacó, de quem aquele poço tornava presente a memória.
Diversas são as motivações dos que procuram a Igreja; saudades do Deus da sua infância; busca de significado para sua vida; impacto provocado por alguma situação difícil; necessidade de cura ou consolo. Nem sempre estão buscando um processo mais completo de iniciação.
Muitos buscam os sacramentos para si ou para seus filhos, sem motivações tão claras; freqüentam as missas ou outras práticas de devoção tendo em vista alcançar graças. Buscam a água que não mata a sede, pois ainda não conhecem a Água Viva.
Para que acontece a conversão e o novo jeito de seguir o Mestre é preciso mudar a linguagem que nem sempre tem sido adequada, são pouco significativas para a cultura atual e em particular para os jovens. Para que a linguagem seja adequada. É preciso que a proposta que vai ser apresentada ao interlocutor tenha a resposta à sede que ele experimenta com mais intensidade.
Também cada um tem que ser considerado na sua realidade humana. No diálogo com a Samaritana, Jesus sonda seu coração, sua vida, sal mente, sua fé. Revela que a vida, a história, as experiências, os sentimentos, os sonhos, os projetos, os medos das pessoas devem ser consideradas, escutadas e valorizadas.
O povo que a Igreja tem a missão de acolher e servir é uma multidão, com rostos variados que precisam ser reconhecidos, identificados, personalizados. Destes, muitos procurarão na Igreja uma resposta para suas buscas. Outros convivem com sua sede sozinhos, ou vão à procura de outra água, em outras fontes, ou ainda, contagiados pela cultura atual, não se dão conta de que têm sede.
Considerando as várias situações em que se encontram as pessoas a serem atendidas nos processos de iniciação, temos entre outros grupos: adultos e jovens não batizados; adultos e jovens batizados que desejam completar a iniciação cristã; adultos e jovens com prática religiosa, mas insuficientemente evangelizados; pessoas de várias idades marcadas por um contexto desumano ou problemático; grupos específicos, em situações variadas; casais em situação matrimonial irregular; adolescentes e jovens; crianças não batizadas inscritas na catequese; crianças e adolescentes batizados que seguem o processo tradicional de iniciação cristã.

V – INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ – COM QUEM CONTAMOS? ONDE?

Os participantes do processo de Iniciação à Vida Cristã devem ser vistos como interlocutores e não simples destinatários. Eles têm direito a catequistas competentes e testemunhas do Reino, bem como a todo apoio da comunidade eclesial que com eles trabalhem num processo participativo.
Diante disso é fundamental um cuidado especial na preparação e acompanhamento destes evangelizadores. Para isso se recomenda que a própria formação desses responsáveis seja no estilo catecumenal, possibilitando a eles viverem a Iniciação à Vida Cristã. Apenas a formação inicial não é suficiente, pois o compromisso que assumem é exigente e requer que assumam com afinco.
O RICA tem importantes orientações sobre os agentes responsáveis pela Iniciação (cf RICA, n. 41-48). Algumas propostas são oferecidas, especialmente no referente aos vários agentes.

Os introdutores: São aquelas pessoas que, através do entusiasmo e exemplo, ajuda o iniciando a encantar-se por Jesus Cristo, pessoa, mensagem e missão.

Os padrinhos e madrinhas: são aquelas pessoas que ajuda o catecúmeno a viver o Evangelho, auxilia em suas dúvidas e inquietações, vela pela oração e a participação na vida da comunidade, no compromisso com a construção do Reino de Deus.

A família: os pais são, pela força do sacramento do Matrimônio, os primeiros educadores de seus filhos na fé, na esperança e no amor. Assim, ao gerar e educar seus filhos, as famílias são cooperadoras privilegiadas de Deus Pai e Criador, de Deus Filho e Salvador e de Deus Espírito Santo santificador. Mas sabemos que são muitas e variadas as situações das famílias no mundo de hoje. Daí é importante na Igreja uma bem articulada e dinâmica pastoral familiar, não isolada, mas em profunda comunhão com as demais pastorais.

Os catequistas: são os mediadores que ajudam os catecúmenos a acolherem a gradual e progressiva revelação do Deus amor e de seu projeto salvífico. Eles têm a missão de auxiliarem cada catequizando para seu encontro pessoal com o Senhor.

A comunidade: lugar onde o iniciante À vida cristã sinta-se bem e descubra nela o exemplo concreto do tipo de vida com o qual ele quer se comprometer.

O Bispo: como primeiro responsável pela Igreja particular ele é o catequista por excelência e deve ter a catequese, segundo diz Catechesi Tradendae, como a prioridade das prioridades. Cabe-lhe, portanto, um zelo especial para com o processo de Iniciação à Vida Cristã e todas as iniciativas de formação continuada em sua diocese.

Presbíteros e diáconos: devem ser homens disponíveis especialmente aos que se mostram hesitantes e inquietos. Cabe-lhes aprovar a escolha dos introdutores, dos padrinhos e cuidar da formação dos mesmos. É função do presbítero zelar pela adequada formação dos responsáveis pelos quatro tempo da Iniciação e garantir que as celebrações e ritos das três etapas sejam segundo as normas da Igreja.

Lugares da Iniciação à Vida Cristã. Os ritos devem acontecer em lugares adequados. O mais importante é que a Igreja particular assuma sua responsabilidade de ser o espaço eclesial de testemunho e evangelização por excelência.

CONCLUSÃO

Propomos aqui um horizonte para orientar a caminhada, pois não é um projeto fechado, para ser seguido ao pé da letra em todas as situações. Por isso falamos em catequese de inspiração catecumenal. Haverá necessidades de adaptações, soluções locais criativas, maneiras de conviver com eventuais carências.
É bom lembrar que nossa catequese tem conquistas importantes que devem ser valorizadas, conservadas e aprofundadas. O novo que está sendo proposto não invalida o que temos e é bom, antes se enriquece com a que já existe e pode favorecer o processo.
Por isso, queremos ser discípulos, não somente gente que faz “cursinho”. Discípulo não é simplesmente uma pessoa que aprende. Ele se encanta pelo Mestre, quer seguí-lo na originalidade de sua própria vida, acolhe na mente e no coração um novo jeito de tomar decisões, de compreender a realidade, de orientar suas forças criativas.


Pe. Almerindo da Silveira Barbosa - Assessor Diocesano da Catequese
Vigário Paroquial - Paróquia Nossa Senhora do Carmo Arcos-MG

sexta-feira, 12 de março de 2010

Inspiração sociointeracionista

Você está pronto para discutir o projeto catequético e participar de todas as reuniões de planejamento. Já percebeu como todas essas tarefas envolvem outras pessoas? Esse é o terceiro ponto fundamental da história. Ninguém vai a lugar nenhum sem um bom entrosamento entre padres, diáconos, seminaristas, coordenadores, agentes, catequistas, catequizandos e familiares. Não há mais espaço, na igreja do século XXI, para o cristão egoísta, que não troca informações permanentemente com os demais na comunidade. O trabalho em conjunto chega como uma importante ferramenta de melhoria do trabalho em comunidade. Na catequese chega de pensar nas salas isoladamente. A perspectiva certa é a do todo. "Trabalhar assim é ampliar a participação da coletividade". O modelo dominante ainda é o que está assentado numa prática individualista e fragmentada, "baseado em conteúdos pre-estabelecidos, com métodos de avaliação excludentes, e numa gestão que dispensa o trabalho em grupo". Mas nem tudo está perdido.

"Procure fugir do conceito de que planejar é dar receitas", "Ou seja, não estabeleça tudo antes. Deixe um espaço para resolver questões imprevistas. A organização da catequese tem a ver com o cuidado de não engessar o processo". O que dá uma importância ainda maior à equipe, que precisa estar coesa. Periodicamente, os catequistas devem fazer entrevistas, reuniões com pais e moradores, que servem de inspiração para o planejamento — um jeito muito bom de tomar decisões em conjunto. Além das reuniões freqüentes de catequista deixe um espaço fixo de discussão com os catequizandos. Com isso, as famílias se sentem co-responsáveis — e os catequistas retribuem com atividades ligadas à vida das crianças. Nas turmas iniciais, por exemplo, um dos trabalhos preferidos pelos pequenos é construir letras de argila para escrever os nomes de pessoas da comunidade.

A aprendizagem é reforçada pela interação. Marina, de 6 anos, Thiago, de 9, e Cíntia, de 14, modelam flores coloridas de papel crepom para enfeitar o ambiente catequético. Vão fazer, juntos, um carro alegórico. Bem perto, outro grupo com gente de todos os tamanhos recorta retalhos coloridos, cola e costura bonequinhos de pano, batizados de Frida e Fritz. A experiência tem por objetivo integrar diferentes idades (a catequese aboliu a classificação por séries ou fases). Os grupos são montados aleatoriamente, para que menores e maiores se ajudem, aprendam uns com os outros. A reorganização das turmas é uma das situações de aprendizagem com inspiração sociointeracionista usadas como parte da proposta de trabalho. No exemplo, eles são apenas três, nos quais as crianças são agrupadas por faixa de idade. Os conteúdos viram um meio para desenvolver competências, o que começa pelos próprios catequistas. Exemplo, um catequistas teve de pensar numa atividade simultânea para catequizandos dos 6 aos 14 anos. "Às vezes, tenho a impressão de que vou perder o fio da meada", diverte-se. A garotada adora. "Os pequenos reclamam um pouco, mas nós, maiores, sempre podemos ajudar", diz Karina, de 13.

No início, há um temor de que os catequistas com catequizandos de 12 e 14 anos não soubessem lidar com os de 6 a 8 ou de que os maiores se desentendessem com os menores mas as experiências vêm mostrando que o resultado é maravilhoso. O motor desses encontros é a possibilidade de proporcionar situações novas além de incentivar o trabalho em equipe. Na prática, eles servem para balançar os alicerces da formação rígida e segmentada e fazer com que as crianças se conheçam melhor. O planejamento individual virou peça de museu. De olho no futuro, o catequista precisa ver a importância de levar o catequizando a querer aprender. Perceber como é glorioso pegar um ser humano cru e elevá-lo. Essa é a função do educador: passar o gosto pelo saber. Em resumo, o desafio que está colocado é buscar a melhor maneira de ajudar a construir um mundo melhor.

Adaptado Flávio.

10 DICAS PEDAGÓGICAS - Adaptado Flávio

10 dicas para dominar as modernas práticas pedagógicas. Muitos catequistas têm dificuldade de passar o discurso pedagógico do papel para a prática. Não é para menos. Por isso, adaptei esta reportagem da revista Nova Escola, repleta de dicas preciosas, para catequistas, educadores da fé. Além das novas práticas - contextualização, avaliação, etc., você vai encontrar sugestões para obter maior rendimento dos catequizandos/as. Boa leitura! E bom planejamento neste ano.

1. Plano de trabalho: conhecer a turma para saber o que e como fazer
Uma turma é sempre diferente da outra. Você sabe disso. E sabe também que, ao iniciar o trabalho com um novo grupo, é fundamental conhecê-lo bem. Só assim podem-se definir com clareza as melhores estratégias e os métodos e materiais a serem usados. É disso que trata o plano de trabalho. Baseado na proposta pedagógica, ele deve também ser norteado pelo planejamento específico de cada etapa ou ciclo que varia de uma turma de catequese para outra. "O plano de trabalho trata das especificidades e demandas de cada turma". É importante, portanto, conversar com os catequistas de cada turma; descobrir se há catequizandos/as na turma com necessidades especiais; se existem, por exemplo, crianças de diversas culturas, etnias ou religiões dos pais; e pesquisar o histórico catequético de cada um. Entrevistas com os pais ou responsáveis também são úteis para saber com quem a criança mora, o que faz nas horas de lazer, se tem algum problema de saúde, de que brinquedos gosta e em que escolas estuda ou estudou e como foram essas experiências. "É bom descobrir o que os pais pensam, o que esperam da catequese e o que desejam para seus filhos". No grupo, é hora de observar quem desenha bem, tem facilidade ou não para leitura, gosta de falar ou é mais tímido. Com tantas informações em mãos, você poderá elaborar estratégias adequadas para todo o grupo considerando as características de cada um. "O plano de trabalho não pode estar pronto nos primeiros dias de catequese porque exige contato prévio com catequizandos e pais". Além disso, é preciso levar em conta o seguinte: mesmo que você planeje seus encontros de acordo com os conteúdos a serem abordados, sempre haverá, ao longo do ano, a necessidade de mudar os rumos. Um dos motivos é atender às necessidades momentâneas dos catequizandos/as. De que adianta, por exemplo, seguir o roteiro sem abordar temas que todos vêem na TV, como as catástrofes naturais, ocorridas ultimamente? "Os encontros consistem em uma seleção pertinente para o momento, pois os conteúdos não se esgotam".

2. Avaliação: acompanhar os catequizandos/as para traçar o melhor caminho
A avaliação sempre deve estar a serviço do catequizando/a. Isso significa que a avaliação, não tem como objetivo determinar notas, mas acompanhar o caminho que o catequizando faz, descobrir suas dificuldades e necessidades e alterar os rumos, se preciso. Ela é constante e pode ser feita durante trabalhos em grupo, jogos e brincadeiras. Só que o olhar do catequista, nestes momentos coletivos, deve ser sempre para cada catequizando. "Assim se observam os interesses e os avanços de todos na turma". Ao pensar em avaliação, você pode lançar mão de atividades interativas em que existam o diálogo, a troca entre os catequizandos/as, a participação e a cooperação. Também é importante ter conversas individuais, olhar o (portfólio) caderno, anotações e as produções de cada um, perguntar o que aprenderam e do que gostaram. O questionamento constante dá aos catequizandos/as a oportunidade de aprofundar as suas respostas. Para que você aproveite tudo isso, o registro diário é fundamental. "A observação só se torna um instrumento válido quando é registrada. As anotações mostram em que as crianças e adolescentes se desenvolveram e em que elas ainda precisam avançar". Você pode ainda avaliar a produção de texto individual, as manifestações dos catequizandos sobre diversos assuntos ou sobre um mesmo tema, em vários momentos e as atividades menores, individuais e freqüentes, corrigidas imediatamente. É preciso garantir que os catequizandos possam expressar sua fé de muitas maneiras (em músicas, textos, orações, gestos, pinturas, fotos). Tudo isso contribui para a aprendizagem e educação da fé. O processo é semelhante a um percurso e seu papel não é esperar os catequizandos/as no final. Você acompanha a turma, ajudando a ultrapassar os obstáculos do caminho.

3. Contextualização: ela vai muito além da relação com o cotidiano
Existe certa confusão sobre o significado do termo contextualizar. A primeira definição é a de que se trata de trazer o assunto para o cotidiano dos catequizandos. É também, mas não só isso. Muitos conceitos e conteúdos são contextualizados no próprio tema abordado. "Isso significa colocar o tema dentro de um universo em que ele faça sentido". Entendido isso, evitam-se situações forçadas, em que o catequista se sinta na obrigação de relacionar todo e qualquer conteúdo à vida dos catequizandos. Algumas vezes, aquilo que ele não consegue contextualizar acaba até sendo excluído do conteúdo, o que prejudica e muito, a aprendizagem da turma.

4. Objetivo: só depois que ele é definido, vêm o conteúdo e a metodologia
Os objetivos que o catequista deseja alcançar devem sempre preceder sua ação. Receber os sacramentos não é objetivo embora seja o idealizado por muitos catequizandos e pais. Os sacramentos fazem parte do processo e estão inseridos na caminhada catequética. O ideal é estabelecer primeiro um objetivo e, depois, um caminho para alcançá-lo o que inclui definir o conteúdo e a metodologia. "É preciso ficar atento para ver se a catequese não está fazendo o contrário: definindo o caminho, que é passar um conteúdo pre-estabelecido, para depois pensar nos objetivos". Muitas vezes os catequistas ficam presos à obrigação de trabalhar o conteúdo preestabelecido e, ao mesmo tempo, à necessidade de fixar objetivos, mesmo que eles não façam sentido. "Aparecem situações estranhas: enquanto o objetivo é desenvolver a consciência crítica, o conteúdo a ser passado é a crase". Obviamente o que domina a cena é a crase, que o catequista pensa que tem de ensinar. O objetivo aparece apenas porque alguém disse que ele deveria estar lá. É preciso pensar no que vai ser feito e para quê. Exemplo de objetivo que norteia um trabalho: Trabalhar um tema sobre a escravidão para aumentar a solidariedade e compreender mais profundamente o significado da liberdade. Esse objetivo, é bom lembrar, deve sempre estar alinhado com a proposta pedagógica da catequese. Os conteúdos e a metodologia são o caminho a ser trilhado com base no que se estabeleceu como meta.

5. Conhecimento prévio e interesse dos catequizandos/as: quem descobre é você
Os conteúdos abordados com o grupo devem, basicamente, contribuir para a formação de cristãos conscientes, informados e capazes de melhorar a sociedade. Por isso, é muito comum os catequistas tentarem montar seus encontros tendo como centro do trabalho o interesse dos catequizandos. Dessa maneira, eles teriam mais elementos para refletir sobre o meio em que vivem e sobre o que os cerca. Essa prática, porém, nem sempre garante bons resultados. "Ocorre até o contrário. Ao dar importância somente ao que os catequizandos já conhecem, muitas vezes os catequistas acabam caindo na superficialidade, presos a interesses imediatos". Como conseqüência, surge um conteúdo ditado pelas circunstâncias, que destaca acontecimentos pontuais e não um roteiro de trabalho construído com base na relação entre a proposta pedagógica e a realidade. "Essa questão só se resolve quando a equipe de cada catequese define os grandes horizontes políticos e pedagógicos de seu trabalho e, confrontando esses grandes ideais com a realidade e com a prática, descobre as necessidades de seus catequizandos".

6. Temas transversais: o pano de fundo do trabalho da catequese
Temas transversais não são conteúdos em si, apenas permeiam todos eles. Se a catequese decide abordar ética de maneira transversal, não pode estipular um encontro sobre o assunto uma vez e esquecer dele no restante do ano. "Esses temas precisam estar presentes em todos os conteúdos, o tempo todo, como pano de fundo do trabalho da catequese". Ao abordar os temas transversais, o catequista leva os catequizandos a refletir para que eles tenham condições de construir conceitos, em vez de apenas coletar informações a respeito. "Caso contrário, é possível que os catequizandos organizem uma coleta seletiva no bairro ou arrecadem alimentos para um asilo sem pensar no porquê de fazer aquilo". Se a catequese propõe à garotada, por exemplo, mobilizar a população e a prefeitura da cidade para fazer um poço artesiano em benefício de uma comunidade que vive na seca, é preciso, antes da ação, uma reflexão profunda. O que é a seca? Que problemas ela traz? Um poço é a melhor solução para o momento? Há outras formas de contribuir? E, principalmente, por que devemos contribuir? Não é apenas o conteúdo catequético que dá gancho a esse tipo de trabalho. "Uma notícia de jornal e até um conflito durante o encontro podem ser mote para reflexão. É um trabalho contínuo, que nem sempre depende do planejamento dos encontros".

7.Tempo didático: para não errar na dose, é preciso ter objetivos claros
Muitas vezes é difícil definir quanto tempo será gasto para desenvolver um tema, uma atividade ou um projeto. Para não errar na medida, é fundamental ter em mente três pontos: o que você quer ensinar, como cada um de seus catequizandos aprende e como você irá acompanhar e avaliar a garotada. "Se o tempo previsto der errado, é porque pelo menos um desses três itens não foi observado". Na prática, isso significa que você deve estabelecer, primeiramente, os objetivos e os conteúdos (seja para um encontro ou para um projeto mais longo). Depois, pensar nas atividades a ser desenvolvidas, baseando-se na maneira como seus catequizandos aprendem. Então, considerar que é preciso tempo para avaliar, constantemente, a produção da garotada e, dessa forma, saber se será necessário estender a abordagem de um ou outro conteúdo, sobre o qual eles apresentaram dificuldades. "É possível prever o tempo de um projeto, apesar dessas variações no meio do caminho". Por isso, é importante planejar o encerramento com certa antecedência em relação ao fim da etapa. Na catequese, evite encerrar etapas no último trimestre do ano, evitando que pais e catequizandos confundam com escola que tem seu tempo relacionado com o ano civil e principalmente o fim do ano letivo.

8.Inclusão: a catequese leva o catequizando/a com deficiência a avançar
Receber uma criança ou adolescente com deficiência não deve ser motivo de angústia. Cada vez mais a inclusão tem sido discutida, e os catequistas hoje conseguem encontrar, em parceria com os pais, a coordenação e os especialistas nas deficiências, caminhos seguros para trabalhar. "A catequese serve para ampliar os conhecimentos. Por isso, o primeiro passo é procurar saber o que o catequizando/a com deficiência já sabe e quais são as possibilidades que ele/a tem de aumentar esses conhecimentos". Procure descobrir como tem sido a experiência do catequizando/a, pesquisando seu histórico e trocando informações com os pais e os catequistas da comunidade. Se ele estiver recebendo atendimento educacional especializado no contraturno em alguma instituição, é importante conversar com os especialistas ao longo do período catequético para acompanhar seu desenvolvimento. Isso pode ajudar muito a planejar os encontros, definir estratégias e escolher os melhores materiais o que é bom não só para o catequizando/a com deficiência, mas para a turma toda. Se sua catequese já oferece esse atendimento, a parceria com um especialista se dará de maneira ainda mais efetiva. No caso de haver um catequizando/a cego, esse profissional pode, por exemplo, ajudar você a elaborar materiais concretos para ensinar um conteúdo próprio (com figuras feitas em relevo, com tinta plástica ou objetos colados no papel). "O catequista deve receber esse catequizando/a como ele recebe todas as outras. Ele/a é, acima de tudo, um aprendiz, um/a discípulo/a".

9. Educação Infantil: o segredo é a autoconfiança do catequista
Ouve-se muito que o catequista de crianças da pré-catequese não pode ser autoritário e que deve se basear no interesse da turma. Mas o verdadeiro responsável pela definição dos temas e das atividades a ser desenvolvidas é ele mesmo. Deixar a cargo dos catequizandos/as essa escolha não é sinônimo de liberdade nem demonstra uma postura pedagógica avançada. "O catequista precisa conhecer o modo como as crianças aprendem e como se desenvolvem e levar isso em conta na hora de planejar cada encontro". Deve-se compartilhar com as crianças algumas etapas do trabalho — pois isso também ensina a estudar e a planejar —, mas sem deixar que elas tomem todas as decisões. Na construção de uma maquete, por exemplo, vale uma conversa com os catequizandos sobre o material a ser utilizado e sobre o que será representado, além de fazer com eles um cronograma, que será utilizado ao longo do trabalho. Esta é a melhor maneira de envolver as crianças e garantir o interesse pela catequese: escolher temas adequados à faixa etária, que sejam relevantes do ponto de vista cultural, esteja relacionado ao local em que a catequese está inserida e sejam propostos de forma instigante.

10. Atividades recreativas, gincanas, passeios: o programa vai além do conteúdo esportivo
Essas atividades devem trazer discussões sobre assuntos como ética, cidadania, respeito às diferenças amizade, amor e cooperação. O cuidado constante com essas questões é essencial e se aplica até mesmo durante um campeonato de futebol. Sempre os escolhidos para formar os times são os mais hábeis e competitivos. Ficam para trás aqueles que, por algum motivo, têm dificuldade para jogar. "Cabe ao catequista discutir o problema claramente e perguntar por que foi escolhido este e não aquele catequizando". "Essas respostas vão permitir a ele trabalhar a questão das diferenças, que não se restringem às habilidades físicas, mas que são também socioeconômicas e culturais." Discussões desse tipo podem fazer parte da vivência diária dos catequizandos/as. "Não adianta apenas falar sobre as diferenças e continuar propondo somente atividades clássicas, como os jogos esportivos". Uma boa alternativa é trabalhar com os chamados jogos cooperativos, em que são valorizados elementos como aceitação, envolvimento, colaboração e diversão. "Joga-se com o outro e não contra o outro. Para alcançar os objetivos é preciso esforço e dedicação".

Quer saber mais?
Bibliografia
A prática do planejamento participativo, Danilo Gandin, 184 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 26,60 reais
Avaliação nas práticas de ensino e estágios, Zelir Salete Busato, 88 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3330-8105, 25 reais
Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, Delia Lerner, 128 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 32 reais
O jogo do contrário em avaliação, Jussara Hoffmann, 192 págs., Ed. Mediação, 32 reais
Planejamento em destaque: análises menos convencionais, Maria Luisa M. Xavier, 176 págs., Ed. Mediação, 28 reais
Ser professor é cuidar que o aluno aprenda, Pedro Demo, 88 págs., Ed. Mediação, 25 reais
Internet www.escolaquevale.org.br você confere exemplos de seqüências didáticas

Quaresma, celebrando nossa conversão - Pe. Kleber

Chegamos na Quaresma, ‘sinal da nossa conversão’. A cor roxa e a moderação se evidenciam nos ambientes celebrativos; os cantos penitenciais antigos e novos ecoam em nossos corações, os textos bíblicos próprios, a penitência, o jejum, a oração e a solidariedade são assumidos por todos. A Campanha da Fraternidade, neste ano de 2009, expõe a problemática da Segurança Púbica e nos propõe como exercício quaresmal a busca da Paz como fruto da justiça.
Quero destacar, neste pequeno texto, os evangelhos de cada domingo, que oferecem verdadeiro itinerário de aprofundamento da fé e do nosso compromisso no seguimento de Jesus a serviço do seu Reino.

No 1º domingo (Marcos 1,12-15), conduzidos pelo Espírito vamos com Jesus ao deserto, tomamos consciência das lutas e provações que fazem parte do nosso caminho como Igreja e aprendemos com Ele a conviver com as feras e os anjos. Ele próprio, vencendo o diabo (o que divide) é o sinal da nossa vitória contra “o fermento da maldade”. (cf. Prefácio do 1º Domingo da Quaresma).

No 2º Domingo, ouvimos o relato da Transfiguração (Marcos 9,2-10). Contemplamos antecipadamente o Mistério da Ressurreição, que resplandece na luz do transfigurado. “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela Paixão e Cruz, chegará à glória da ressurreição” (Prefácio 2º. Domingo da Quaresma).

No 3º Domingo, acolhemos a Boa Nova no episódio em que Jesus expulsa do templo os vendilhões e anuncia a construção de um novo templo (Jô 2,13-25). A quaresma tem nos ajudado na edificação do templo espiritual que somos nós? Somos o novo templo, mas precisamos purificar-nos continuamente de tudo aquilo que não nos deixa oferecer sacrifícios agradáveis ao Senhor.

O 4º Domingo é chamado “o domingo da Alegria” (João 3,14-21). Com Nicodemos, aprendemos de Cristo que só se salva quem tem a coragem de dar a sua vida. A Palavra proclamada lembra os males da infidelidade e mostra que seguir os caminhos do Senhor traz paz, segurança e salvação. Vale sempre lembrar que o ponto de partida para a compreensão da Quaresma deve ser o Mistério Pascal. A Quaresma não tem um fim em si mesma, mas aponta para o horizonte da Páscoa.

No 5º Domingo lembramos que o caminho do/a discípulo/a de Jesus passa pela cruz (João 12,20-33). A penitência destes 40 dias retoma esta dimensão do discipulado. O colocar-se por inteiro a serviço do reino como Jesus, implica necessariamente na entrega da vida, na capacidade de suportar sofrimentos e de relevar contratempos. A própria experiência de passar pelo vale da morte, tem em si uma força transformadora, à medida que nos liberta de toda ilusão e pretensão para “a verdadeira liberdade para a qual Cristo nos libertou”.

Portanto, este caminho quaresmal, é um tempo favorável, uma oportunidade especial de oferecimento pascal de nossas vidas, e de deixar santificar pelo Espírito que faz novas todas as coisas. A Igreja, Povo de Deus, é convocada a viver esta experiência pascal, a deixar-se purificar e santificar pelo seu Senhor. “Eis o tempo de conversão! Eis o dia da salvação! Ao Pai voltemos! Juntos andemos!”
Um bom itinerário quaresmal a todos.

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:
1. Como você vive o tempo da Quaresma?
2. Como podemos valorizar mais a Palavra de Deus durante o tempo da Quaresma?
3. Como podemos integrar a Campanha da Fraternidade na vivência do tempo quaresmal?

A prática do Portfólio na catequese - adaptado Flávio

A prática do portfólio pode e deve concentrar a atenção de todos (catequizandos, familiares e catequistas) nas atividades importantes do aprendizado da mensagem cristã. O Processo de compilação dos trabalhos realizados pelos catequizandos pode estimular o questionamento, a discussão, a análise e a reflexão dos temas apresentados nos encontros e relacioná-los com os acontecimentos do cotidiano. O portfólio proporciona ao catequizando, se servir dos conhecimentos adquiridos fora do encontro, enriquecendo assim as atividades catequéticas, relatando suas próprias experiências.
Como elaborar
O objetivo é a interação fé/vida. Já o portfólio dos catequistas, é o registro do planejamento das atividades e a avaliação do encontro e dos participantes. Ambos são iguais na estrutura, porém o do catequista difere no conteúdo.
O portfólio do catequizando poderá ser feito em um caderno brochura (se possível de capa dura) ou uma pasta de plásticos para inserir anotações, trabalhos realizados em sulfite e demais atividades. Confeccionar a capa é uma atividade que desperta um maior interesse no catequizando. Ela tem de ter a cara do catequizando, deve ser autêntica. Não use um como modelo, a proposta é justamente a criatividade. Diversas linguagens expressivas ajuda-nos a identificar os interesses da turma e a conhecer mais os catequizandos.
Roteiro de Portfólio dos Catequistas:
1- Data de realização do encontro 2- Assunto/Tema 3- Objetivo proposto
4- Desenvolvimento 5- Registro da interação fé/vida 6- Anexos
7- Principais destaques (registrar o interesse dos catequizandos pelo tema, pontos + e – do encontro)
8- Observações a respeito do comportamento, atitudes
O portfólio do catequizando pode também ser instrumento de evangelização para pais, irmãos e outros membros da família, encorajando-os a fazerem parte dos encontros catequéticos. É importante os catequistas envolverem os pais que afinal são os primeiros catequistas dos filhos. Solicitar aos pais que acompanhem e participem da confecção do portfólio do catequizando é uma forma de explicar e defender quaisquer mudanças na maneira de como ensinamos e os cuidados que temos na educação da fé de seus filhos.
O pais podem ajudar:
• fornecendo informações, materiais e comentários para o portfólio
• participando de um encontro com o grupo e partilhando suas experiências sobre o assunto
• sendo parceiros, trazendo sugestões sobre a aplicação e comentando sobre o interesse do(a) filho(a) sobre os temas abordados na catequese
• oferecendo material pedagógico e de apoio para enriquecer os encontros
• motivando seus filhos, alertando-os para os fatos do cotidiano, notícias, indicando livros, lendo juntos, conversando juntos.
Abrir um portfólio bem feito é como abrir uma arca do tesouro. Folhear as páginas e se deparar com anotações, rascunhos, esboços, amostras de trabalhos, desenhos, fotografias, é remeter-se a momentos especiais de nossas vidas. Sentimentos como alegria e saudades poderão ser despertados nesse momento.

Necessidade de ajudar (ou ser ajudado) - Mário Quilici


Em geral, vivemos impelidos por uma espécie de culpa crônica que nos leva a querer mudar tudo e todos, com a desculpa de que vamos ajudá-los. Em geral, quando ajudamos alguém, agimos com a convicção de que somos melhores e temos mais conhecimento ou dinheiro (poder) que o outro. Por isso, julgamos saber o que é melhor para ele e, com isso, nos esforçamos para mudar sua forma de pensar e sua forma de ser. 

Muitas vezes, aprendemos em casa esse padrão de ajuda compulsiva. As mamães que são inseguras (tornam-se em geral autoritárias) e medrosas, e estão sempre tentando resolver as coisas para seus filhinhos em vez de os deixarem descobrir o mundo por seus próprios meios. Elas temem que seus bebês não suportem (assim como elas não suportam), as decepções da vida (É a isso que chamamos de projetar na criança o seu próprio estado de espírito). 

Essas mães poupam seus filhos da realidade com mentiras, acobertamentos, agindo por eles e escondendo a vida real dos pequenos olhinhos ávidos por ações e descobertas. Muitas dessas mães sequer estimulam seus bebês para evitar que se decepcionem. O que essas mães não sabem é que suas crianças estão equipadas para resolverem uma infinidade de problemas característicos de cada idade. Mas se forem impedidas e ajudadas a todo o tempo, elas serão no futuro, aquelas pessoas que vão ajudar os outros compulsivamente. O pior disso é que, se não o fizerem vão se sentir culpadas. Se forem impedidas, ficarão magoadas. Elas, como suas mães fizeram, terão que carregar o mundo nas costas. 

Pense comigo. Se você tem um bebê e sabe que ele vai ter que enfrentar esse mundão ai fora, quando crescer, o que é melhor fazer? É um mundo cheio de aventuras, desventuras, armadilhas e, quando não, de misérias. Qual é a melhor coisa para ele? Já pensou nisso? Qual seria sua resposta? Se você acha que deve poupá-lo para que ele tenha uma “infância feliz, enquanto isso for possível”, está redondamente errada. 

O que é mais importante de ser aprendido deve ser aprendido no inicio da vida. Talvez a melhor coisa para o bebê, seria aprender a descobrir a extensão de seus próprios recursos desde o inicio. Como ele faria isso? Vivendo, agindo, errando, acertando, se frustrando, acertando de novo, errando de novo e etc., mas, sempre contando com sua tolerância, amor e compreensão. Através desse acúmulo de acertos e erros, o bebê vai construindo a noção de seus próprios limites e poderá ampliá-los sempre que for necessário (buscar tarefas mais complexas). Se ele não tem uma experiência anterior construída, como poderá ter recursos para resolver problemas que surgem depois, quando está mais velho? Se a mãe faz tudo para o bebê, como é que ele vai saber qual é seu limite? 

Observe como eles estão sempre se esforçando. Bebês são incríveis, eles têm a vida intrépida correndo nas veias do espírito. A mãe pode, na melhor das hipóteses, tornar digerível uma situação desagradável, um fracasso numa ação aceitável, e um erro uma coisa normal. Muitos pais, sem perceberem, fazem de tudo para tornarem-se imprescindíveis na vida de seus filhos. Esse é um problema pessoal que deveria ser tratado. Mas eles querem ser os grandes heróis na vida de suas crianças. Desta forma, impedem que a criança amadureça e torne-se independente. 

A criança só pode amadurecer e individuar-se se adquiriu a noção de suas próprias habilidades e conseqüentemente de sua potência que, em última instância, significa: “posso cuidar parcialmente de mim”. Se ele tiver essa noção de potência, não sentirá muito medo e poderá curtir as coisas boas da vida infantil. Os pais que fazem as coisas dessa forma querem dar significados para suas vidas que são percebidas como destituídas de sentido. Então, se os pais foram assim com seus filhos, eles não terão outra saída a não ser, agir da mesma forma com os outros. Aprendemos que essa é a forma de existir: fazendo o outro prescindir de nós durante todo o tempo.

A FRUSTRAÇÃO 

Mas os problemas não param ai. Você sempre terá a ilusão de que, estando disponível para as pessoas, elas “estarão lá”, quando você precisar. Foi esse o preço que seus pais cobraram por serem tão solícitos. Você tinha que estar sempre lá, disponível para pagar os favores que já tinha recebido. Não é que eles eram sacanas, maldosos e calculistas. Eram humanos. Esse é um padrão cultural. Geralmente, essa é uma das queixas que mais ouço: “Fiz isso e aquilo pelo sujeito e agora, quando eu precisei, ele não estava nem ai!”. E ai? Na verdade temos que enfrentar uma dura constatação: foi você que se colocou à disposição do outro porque precisava ser usado por ele. Ele, só usou o que lhe foi oferecido. Vai me dizer que você não sabe dizer não? Não houve um pedido de ajuda ou um contrato explicito dizendo que ele devia retribuir. Houve? Essa idéia, foi criada na sua cabeça. Essa é a sua forma de ver as coisas. Por essa razão, não fique com raiva, se os outros não “reconhecem” os esforços que você faz. Aliás, você não faz esforços por eles, faz esforços para ganhar amor e admiração. 

A INGRATIDÃO 

Por outro lado, tenho observado que, com poucas exceções, os esforços para ajudar os outros, sempre resultam numa certa raiva de quem recebeu a ajuda. Talvez você já tenha se perguntado porque as pessoas são tão ingratas? Na verdade há um problema ai, que merece alguma reflexão. Todos nós, ainda que procuremos manter ocultos nossos problemas e defeitos, sabemos deles. Vivemos uma vida inteira conosco e assim, pudemos nos observar melhor do que ninguém. Ninguém conhece você tão bem, quanto você mesmo. Até mesmo aquilo que dizem que é inconsciente, nós conhecemos por "intuição". O problema é sabido mesmo que ainda não tenha sido pensado. Dessa forma, você nunca sabe quais os dramas pessoais que um indivíduo tem. De que história se constituiu a sua vida e como ele foi ferido por essa mesma história. Quando você faz um favor para uma pessoa - um favor que ele não pediu - poderá estar comprando uma encrenca e não um amigo. É por isso que as pessoas não podem ficar gratas a você. As pessoas às vezes, querem correr riscos, aprenderem por si mesmas, errarem para poder acertar, ampliar seu foco de percepção do mundo. Se você os ajuda sem que eles peçam, está causando-lhes mais embaraços do que benefícios. Pode estar despertando sua raiva. Mas e se ele errar? Sorte dele! Ele sempre poderá refazer o caminho e aprender. Mas, nessas horas, em que o indivíduo erra, se ele ficar mal podemos acolhê-lo sem fazer qualquer crítica. Seu erro já é um marco mais que suficiente de sofrimento e ele saberá reconhecê-lo sem nossa ajuda. Acolher é um ato sem palavras que significa que não há problemas com o erro. É uma atitude humana. 

A DIFICULDADE DE PEDIR

Nós só deveríamos ajudar alguém que pede nossa ajuda. Quando pedimos, valorizamos o que vamos receber. Conquanto devêssemos atender que quem pede, deveria ficar grato, nos deparamos com outro problema: Na nossa cultura, pedir é uma humilhação indescritível. É verdade que nem todos são assim, apenas a maioria. O que já é alguma coisa. Existem pessoas que passam necessidades, mas não ousam pedir. Sabemos que a questão, não é o pedir, mas sim o que o ato de pedir significa. Normalmente o pedir lembra a pessoa de sua tormentosa insuficiência. Quanto mais o indivíduo se envergonhar de sua insuficiência, mais dificuldade ele terá para pedir. As pessoas envergonham-se dessa insuficiência. É como se houvesse a obrigação de ser “Super”. De onde você acha que nasceu o mito do Super Homem? Do desejo narcisista de valer-se por si só e não precisar de ninguém (complexo de Deus?). As pessoas sentem vergonha de sua falta de habilidades. Então, em vez de pedirem diretamente, costumam comunicar suas necessidades por mímicas, por provocações, por indiretas certeiras e por chantagens. Fazem com que você resolva a coisa para eles sem pedir. Se você é um “ajudador compulsivo”, vai entrar nessa facilmente. Logo, o intrometido será você. Pedir é reconhecer a potência do outro. Mas quando se reconhece a potência do outro lastimando a própria impotência (que é o mais habitual), então há inveja e dor. O desejo de pedir fica obscurecido. As pessoas ficam na solidão desvalorizada. A sensação é de que serão sempre humilhadas pelos progressos e habilidades do outro. Solidão dura essa de não poder constituir uma rede de pessoas a quem reconhecer, admirar e com quem contar. A solidão traz uma outra desvantagem: não reconhecemos o outro e ficamos sem reconhecimento. Inexistentes. Esse é o retrato das sociedades contemporâneas. Uma das racionalizações que geralmente se usa para “encobrir” esse comportamento de negação da importância do outro é a alegação de que não se gosta de “ficar devendo favores”. Será que alguém realmente são, consegue viver sem ficar devendo alguma coisa ao outro? Que idéia mais maluca essa! Tal idéia é de uma pretensão sem precedentes. A mim parece que, ai, se reafirmam todas as sensações de inferioridade que dominam o sujeito. Na maior parte das vezes, as pessoas não podem precisar do outro porque temem a rejeição. Quem teme ser rejeitado é porque sente que não tem valor algum que possa apaixonar o outro. Também não lida com a realidade. Dessa forma, não sabe dar nem pode receber. O dar e o receber, não importado as direções, nos ensinam que é possível dividir o que se tem e enriquecer o mundo generosamente. É uma valorização do outro e a nossa própria valorização.Tal gesto devia garantir a sensação de gratidão e amparo e não a vergonha.

A AJUDA POSSÍVEL

Provavelmente quando estamos agindo compulsivamente no sentido de ajudar os outros, estamos evitando pensar em nossas próprias dificuldades e limitações e ainda “por cima”, criando problemas para nós. Quando ajudamos alguém que não reconhece nossos esforços, ficamos com nossa auto-estima mais rebaixada, repetindo aquilo que fizeram conosco durante a infância. Nosso coração fica magoado e o ressentimento é um péssimo negócio para a saúde. Eu sei que não é fácil ver as pessoas que amamos fazendo burradas, quebrando a cara ou criando confusões para si mesmas. Dói no coração da gente. Todos nós, de alguma forma, tivemos uma experiência assim com familiares, amigos e companheiros. Isso fica ainda mais difícil quando nós conhecemos um caminho mais certeiro, para que coisas ruins não aconteçam àquelas pessoas de quem gostamos. Se as amamos, queremos protegê-las. Mas na verdade, proteger, às vezes, significa deixá-las errarem para que amadureçam. Durante toda a nossa vida assistiremos coisas assim. Na maioria das vezes, nada poderemos fazer. Temos então, que aprender a lidar com as nossas ansiedades e limitações. 

Há quatro aspectos a serem pensados sempre que encontrarmos alguém em apuros: 

1) Temos que confiar que cada pessoa sabe fazer sua escolha e é responsável pelos resultados do que escolhe; 

2) Ela não faz uma escolha diferente da nossa porque quer nos contrariar, mas sim, porque ela tem o direito de pensar em algum caminho criado pelo seu próprio raciocínio. Pode dar certo; 

3) Experiência geralmente não se transfere. Cada um cria sua própria experiência; 

4) Pessoas saudáveis, saberão pedir depois de esgotarem suas possibilidades, ou seja, sempre que for realmente necessário. 

Creio que a primeira coisa que temos que fazer é compreender justamente isso: que cada um tem que ter sua própria experiência e tirar dela, suas próprias conclusões. Nossos sermões, exigências e ordens, em nada mudam a vida do outro. Ao contrário, podem aborrecê-los. Mesmo que o indivíduo falhe, terá feito algum aprendizado importante. Nós podemos, na verdade, colocarmo-nos à disposição para quando vem a depressão do fracasso, oferecendo nossa companhia, nossa amizade e nossa compreensão. 

Acreditar que o outro é capaz de suportar seus próprios fracassos, é uma forma de dizer-lhe que sabemos de sua força e de sua habilidade de lidar com a vida. É a nossa forma de dizer que confiamos nele. Não elogie, não ponha “pano quente” e nem “doure a pílula”. As pessoas sabem quando fazem coisas que não estão de acordo. 

Na maior parte das vezes, as pessoas têm medo de arriscar e errar porque foram tratados com desprezo e sarcasmo nos momentos em que tentaram. Foram recebidos com criticas e desprezo nos momentos em que erraram. Esse é um problema de uma cultura que tem como único objetivo o sucesso. Geralmente, as pessoas têm a ilusão de que são os únicos a errar e que seus erros são os mais terríveis. Essas são características de quem tem a auto-estima rebaixada. Pense que todos nós erramos na mesma proporção. Todos temos limitações em algumas áreas. 

A diferença é que as pessoas que têm a auto-estima melhor, aprendem a tirar proveito de seus erros e vão em frente. As demais, envergonham-se e ficam sentadas em cima dos erros, para que ninguém os veja, enquanto lamentam. Tais pessoas pensam um pequeno fracasso como um fracasso enorme. Assim, para essas pessoas, novas tentativas são mais raras. A ilusão do Super Homem é como dissemos, apenas uma ilusão narcísica, e não uma realidade possível.

Mario Quilici, psicanalista, pesquisador independente e ativo do desenvolvimento infantil e de como os distúrbios do vínculo entre os Bebês e seus pais podem levar ao surgimento de psicopatologias na medida que impedem um adequado desenvolvimento emocional e conseqüentemente da personalidade. Desenvolve trabalho clínico com adultos, casais e famílias bem como com orientação de pais. Dedica-se também ao estudo de neuropsicologia e psiconeuroimunologia